domingo, 23 de setembro de 2012

Três da Manhã (Crônica)


Ela entrou pela porta dos fundos. Tinha a impressão de que se fizesse pouco barulho poderia entrar e sair sem ser vista, afinal eram três da manhã. Um pé após outro, cautelosamente adentrou à sala, mas era desnecessário desanunciar-se. Ele estava acordado.
- Desculpe, achei que você estivesse dormindo.
- Você poderia vir de manhã, depois que eu já tivesse saído, se não quisesse mesmo me encontrar.
- Eu sei. Mas estou mesmo precisando de algumas das minhas coisas.
- Eu não quis ser rude. Quis dizer que tudo bem você vir aqui e eu estar acordado.
- Eu sei.
Como dois estranhos que se cruzam em uma prateleira de supermercado e disputam algo trivial, como um pacote de biscoitos. Foi assim que eles se sentiram durante aquela conversa incômoda, às três da manhã. Quantas vezes em sete anos estiveram acordados até as três da manhã, porque tinham assunto demais e tempo de menos! E agora precisavam procurar as palavras certas, para garantir que de fato, pudessem trocar pelo menos duas ou três frases inteiras.
Enquanto subia para o quarto com a mala vazia, ela se lembrou das vezes em que ele esperava por ela ao pé da escada, sempre que iam sair e do olhar de espanto que ele fazia, fosse qual fosse a roupa que ela vestisse. Todas as vezes era como se ele estivesse olhando para ela pela primeira vez. Mas depois de alguns anos, ela teve a impressão de que ele fazia isso pela mera obrigação de ser um bom marido e deixou de usar belos vestidos, só para ter certeza de que era automático. E ele deixou de chamá-la para sair porque achou que ela não gostasse mais da companhia dele, já que não fazia questão de se vestir como se estivesse indo para um encontro.
E por acharem demais e conversarem de menos, de repente se tornaram dois desconhecidos tendo um diálogo gélido, às três da manhã, na mesma sala em que antes traçavam os planos de férias e a reforma do banheiro, ao som de Nina Simone. Mas ele estava mais triste, pelo simples fato de que por ele, tudo bem se ela não quisesse mais se arrumar para sair ou se preferisse ficar em casa. Desde que ela estivesse ali, ele poderia se acostumar com algo que não fosse igual ao dia em que saíram da igreja casados. Só que para ela, meio amor já não servia mais.
- Consegui alguém para buscar o resto das coisas, mas ele só pode na semana que vem, pode ser?
- Pode. Mas você sabe o que eu penso sobre isso. É ridículo que você saia da casa. Se vamos mesmo fazer isto, é você quem deveria ficar.
- Não, não me sinto no direito. Você desenhou cada canto desta casa com tanto carinho, que seria maldade da minha parte tirar você daqui.
- É, mas eu desenhei ela para você, para nós. Sem a gente aqui, ela vai ser só mais um dos meus projetos.
- Nós já falamos tanto sobre isso, não sei por que você ainda insiste.
- É porque ontem eu assisti aquele filme que você me pediu tantas vezes para ver e eu fui deixando...
- Qual deles?
- Like Crazy.
- Sei...
- E aí a Ana escreveu algo para o Jacob, no livro do amor, que mexeu comigo.
- E o que foi?
- Ela escreveu: “Quando Jacob se for, com que olhos vou comparar a luz do sol, ao amanhecer?”. E eu me dei conta de que quando você não estiver mais aqui, muitas das coisas que eu considero sublimes perderão todo o sentido. E eu não vou saber o que fazer com elas.
- Eu sinto muito, de verdade. Eu sinto muito por você ter visto isso tão tarde. E eu sinto muito porque nós éramos um projeto muito promissor. E eu sinto mesmo, muito, porque nada do que você diga, agora, vai me fazer querer ficar.
- Eu sei. Mas eu queria que você soubesse...
Quando ela fechou a porta atrás de si ficou pensando em como alguém que ela havia amado tanto, com tanta intensidade, poderia agora ser um completo estranho e em como ela poderia desejar tanto estar em outro lugar, se tudo o que ela quis por tantos anos foi estar exatamente ali, como se não existisse outro lugar no mundo. E quando ela fechou a porta, tudo o que ele conseguiu pensar foi em como conseguiu ficar todo tempo ao lado daquela mulher, sem saber que a amava tanto. E dificilmente depois disto vai haver no mundo uma mulher que se sentiu tão livre e um homem que se sentiu tão triste, exatamente às três da manhã.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Não, beleza não é fundamental


Quando Vinícius de Moraes escreveu a famosa frase “que me perdoem as feias, mas beleza é fundamental”, certamente devia estar apenas poetizando. De fato a frase é boa de marketing. Possivelmente era apenas retórica, já que o considero inteligente demais para ter pensado assim. Afinal, beleza só é fundamental mesmo em concurso de beleza. No mais, fundamental é caráter, que não dá para disfarçar com corretivo e pó-de-arroz.
A
indústria cosmética é uma das que mais crescem no mundo. Investe-se milhões em tecnologia para descobrir novas maneiras de tornar as pessoas mais bonitas por fora. O Brasil é o terceiro maior mercado mundial de cosméticos, perfumes e higiene pessoal, atrás apenas dos Estados Unidos e Japão e à frente de países europeus como França, Alemanha e Reino Unido.

E
m 2003, a Avon encomendou uma pesquisa, com 21 mil mulheres em 24 países, constatando alguns resultados surpreendentes. Por exemplo, que para 90% das brasileiras, os cosméticos são uma necessidade e não um luxo. Esse número chega a 67% nos Estados Unidos e a 73% em média na Europa. Quase 90% das brasileiras responderam também, que a aparência é importante para definir o que são. A questão ignorada é que sim, é possível pagar por um novo nariz, lábios mais volumosos, cabelos mais lisos, seios maiores e até por uma cintura mais fina, mas não há dinheiro no mundo que compre um caráter sem manchas.

E
ntão preciso correr o risco de discordar do Vinícius e dizer: não, beleza não é fundamental. Ou pelo menos, não deveria ser. Não deveríamos relegar à beleza a tarefa de escolher cônjuges, amigos, funcionários. Deveríamos escolher as pessoas de nosso convívio com base naquilo que não se pode ver de imediato. Porque beleza acaba. Nem a mais bela mulher do mundo será eternamente assim. Já as qualidades que não se pode perceber exteriormente, essas acompanham a pessoa além da própria existência.
Obviamente é mais rápido e fácil fazer escolhas com base na beleza. É por isso que ela se tornou tão fundamental. Construir um caráter dá muito mais trabalho do que “dar um tapa no visual”. Um caráter nobre se constrói desde a infância, com palavras e principalmente com ações. Porque de nada adianta dizer para seu filho que é feio mentir, mas mandar dizer que não está quando alguém vem à sua porta pedir comida.
N
ão é errado querer ser bonita e estar sempre apresentável. É até uma qualidade. Porque apesar de não ser fundamental, a beleza é cativante. O problema é quando cultivamos a beleza apenas, em detrimento de todas as demais qualidades. O erro ocorre, quando trabalhamos tanto na embalagem que esquecemos completamente o conteúdo.

M
ulheres belas de verdade têm mais a oferecer ao mundo do que apenas o rosto impecável e o corpo esbelto. As muito bonitas contribuem na decoração, com certeza. Mas não dá para mover o mundo em cima de um salto 15. Então, se ficar na dúvida entre investir na sua beleza ou no seu caráter e não puder mesmo conciliar os dois, escolha de olhos fechados a segunda opção. Porque um dia vai faltar espaço para as rugas do lado de fora, mas sempre haverá espaço suficiente para novos valores do lado de dentro.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Maternidade: privilégios e responsabilidades


No final do mês de dezembro do ano passado vivi a experiência mais extraordinária da minha vida. Dei à luz minha pequena Martina, tão ansiosamente aguardada não só por mim, mas por toda a família e amigos. Provavelmente, tudo o que poderia ser escrito sobre a experiência da maternidade já foi e por isso, voltar ao assunto me leva, inevitavelmente, aos clichês. Mas até mesmo estes são aceitáveis quando se trata de um tema tão grandioso.
Como mulheres, vivemos algumas experiências difíceis, que para nós são ainda mais duras pela essência da nossa personalidade, mais sensível, mais humana, mais facilmente abalável. Esvaziar as gavetas do marido que foi embora, arrumar o quarto do filho que partiu, pentear os cabelos de uma mãe senil ou enfeitar o túmulo de um ente querido que se foi. Tudo isso é intenso demais para as mulheres, que guardam em si toda a delicadeza que pode haver no mundo. E talvez por isso, nos foi dada também a oportunidade de gerar a vida, pois não pode existir nada mais intenso do que isso.
Quando a pediatra me mostrou a Martina e colocou o rostinho dela perto do meu, tantas coisas passaram pela minha cabeça que eu não poderia descrevê-las sem extrapolar meu espaço. Mas de uma delas eu lembro vividamente. Foi o pensamento: “nunca mais estarei sozinha”. Não importa o que aconteça no futuro, ou quão difícil seja o caminho ou mesmo quantas alegrias eu ainda vá sentir. Aquele momento será apenas meu para sempre e é a certeza de que o sentimento de solidão pode até chegar, mas não fará morada, pois terei para sempre um pedaço de mim circulando fora do meu corpo.
É por isso que se tornou ainda mais difícil entender como as pessoas podem jogar seus filhos fora ou abandoná-los, seja da maneira que for. Na semana em que a Martina nasceu, um bebê recém-nascido foi lançado da janela de um carro em movimento. Apesar dos ferimentos ele não morreu. E ter essa preciosidade em meus braços me fez refletir seriamente em como aquela mãe teve coragem, ou covardia, para fazer aquilo. É mesmo um mistério, que a psicologia até explica, mas nunca vai conseguir justificar.
Junto com este privilégio elevado de gerar a vida, nos é também concedida uma enorme responsabilidade. Apenas ter os filhos, como se fôssemos máquinas de reprodução, é uma atitude cruel e insana. Mesmo os filhos não planejados devem ser amados, educados e motivados a serem bons cidadãos e excelentes seres humanos, pois esta é a única maneira de pensar uma sociedade que seja melhor do que esta. A violência a que estamos expostos a cada dia, nada mais é do que uma terrível combinação de fatores: negligência governamental, famílias desestruturadas e falta de limites na educação.
Eu desejo a todas as mulheres que tenham esta experiência transformadora em suas vidas e acima de tudo, que assumam a grandiosa responsabilidade que a acompanha. A recompensa imediata é um sorriso sem dentes que achamos a coisa mais maravilhosa do mundo, mas os resultados em longo prazo, só a eternidade revelará.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Sexo frágil?!


Acho interessante quando alguém, em plena vigência da pós-modernidade chama as mulheres de “sexo frágil”. Deveria ser, supostamente. Suportamos menos peso e temos alguma dificuldade com vidros de azeitona e portas emperradas, mas definitivamente o estereótipo que já nos definiu, no passado, como sexo frágil, não existe mais.
A
companhe o raciocínio. Não vamos ao médico enquanto uma dor não vier acompanhada de pelo menos mais um sintoma real. Suportamos a jornada dupla de trabalho. Temos extensos e dolorosos trabalhos de parto e não fugimos deles, a menos que seja preciso. Preferimos sempre a verdade, mesmo que ela não se encaixe em nosso planejamento. Temos um planejamento. Nos acabamos de chorar no travesseiro por uma noite inteira, mas pela manhã um pouco de gelo e um bom corretivo resolvem nosso problema. Entendemos, desde muito cedo, que cada escolha representa uma renúncia. Somos capazes de morrer de amor e tristeza por filhos, maridos e famílias, mas aprendemos a renascer, sempre que necessário. Onde está a fragilidade em tudo isso?

A
ideia do sexo frágil é tentadora. Faz parte de uma utopia que criamos. Queremos mesmo ser frágeis, protegidas, amadas, veneradas, consoladas e cuidadas como se fôssemos feitas de cristal. Mas quando não somos, sacudimos a poeira e seguimos em frente, fazendo por nós mesmas, aquilo que alguém deixou de fazer. Não é à toa que mundo afora, há milhares de mulheres que chefiam a família porque o marido ou companheiro foi embora. E dão conta de cinco, seis, oito filhos, da casa e de um emprego que banque tudo isso. Força total!

D
e fato, cresceu o número de mulheres que chefiam a casa. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio de 2009, divulgados este ano pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que de 2001 a 2009, a proporção de famílias chefiadas por mulheres no Brasil subiu de aproximadamente 27% para 35% do total. São mulheres solteiras, separadas ou viúvas que têm filhos, solteiras sem filhos, morando sozinhas, entre outras. Mas o perfil que mais chama a atenção é o das mulheres casadas chefiando a família, mesmo tendo um marido ou companheiro em casa, com ou sem filhos. Em 2009, 14,2% dos casais com ou sem filhos eram chefiados por mulheres. Nem sempre é uma questão de escolha, mas quando preciso, encaramos a nova realidade que de alguma forma, se estabeleceu na sociedade.

D
urante muitos e muitos anos ficamos deste lado do rio, esperando que um homem forte e gentil nos ajudasse a atravessar. Só que isso não aconteceu. E assim, construímos um pedaço significativo da História da humanidade, através da nossa luta e da coragem de enfrentar desafios, paradigmas e tabus.

A
inda apreciamos que nos abram a porta do carro, que carreguem nossas compras, que paguem a conta do jantar. Porém, não permitimos mais que estas atitudes nos tornem dependentes ou submissas. Com uma boa parcela de exceções, é claro, hoje sabemos o que queremos e o que devemos fazer para chegar lá.

Q
uando você se sentir terrivelmente tentada a se debruçar sobre um problema e desistir lembre-se: nada define melhor uma mulher do que a sua força. Em algum lugar do seu coração existe uma rocha que não se despedaça por qualquer intempérie e que a ajudará a manter-se em pé, quando tudo o mais estiver desmoronando. É um excelente pensamento para começar um novo ano, que está quase aí e quem sabe até, uma nova vida.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Escolhendo bons pais


Às vésperas de ser mãe, se pensa em muita coisa. Chego a concluir que sempre que surge um filho, surge uma nova neurose. Porque passam coisas pela cabeça que nunca haviam passado antes. Mas pensar é bom, refletir, melhor ainda.
E
aí, no meio de uma dessas reflexões, fiquei a par de um antigo ditado canadense que diz: “quando o pai falta, o filho manca”. E tive um pouco de náusea. Não enjoo, daqueles terríveis do início da gravidez. Náusea mesmo, como se estivesse em uma roda gigante de alta velocidade.

P
orque isso significa, que não importa quão boa mãe você seja, o quanto você se esforce e quantas medalhas de honra ao mérito ganhe pela educação de seus filhos. Se faltar o pai, sempre faltará alguma coisa. E então lembro que isso não depende apenas da gente. Depende deles e das decisões que tomam.

Hoje em dia é comum ouvir histórias sobre mães que abandonam os filhos, que os rejeitam ou que são negligentes na sua criação. Mas graças a Deus, isso ainda é exceção. A grande maioria das mães é devotada à criação dos filhos, trabalhando com o que têm de melhor para oferecer a eles. Mas sempre existiu e cada dia mais, ouve-se histórias de pais que abandonaram seus filhos. Parece ser mais simples para eles. Não carregam nada, apenas escolhem não participar e vão embora. Como se virar a esquina os livrasse daquela obrigação.
E então muitas mulheres são obrigadas a ser mães e pais. Quer dizer, se obrigam a tentar, porque por mais triste que seja a constatação, elas jamais conseguem. Há inúmeros estudos da psicologia sobre as consequências da ausência do pai, especialmente nos primeiros anos de vida da criança. E todos eles apresentam um prognóstico ruim para elas. Isso é assustador.
Em uma sociedade regida pelos princípios da competitividade e da relatividade é cada vez mais fácil produzir um filho e depois abandoná-lo. E as justificativas são inúmeras também. “Não quero mais o casamento, mas serei responsável pela criança”. Que tipo de responsabilidade é essa? Como alguém pode ser participante ativo da vida do filho, sem estar presente? Virtualmente? Ora, por favor. A virtualidade é sinal de progresso, mas não pode substituir a presença de alguém tão vital para o desenvolvimento infantil.
A
penas para citar uma destas inúmeras pesquisas, li uma bastante completa, feita por dois psiquiatras gaúchos, David Bergmann e Marian Eizirik, chamada “Ausência paterna e sua repercussão na vida da criança e do adolescente”. Entre outros autores, citam o artigo “Da proteção generosa à vítima do vazio” para apoiar suas descobertas. “Segundo Muza, crianças que não convivem com o pai acabam tendo problemas de identificação sexual, dificuldades de reconhecer limites e de aprender regras de convivência social. Isso mostraria a 'dificuldade de internalização de um pai simbólico, capaz de representar a instância moral do indivíduo'. Tal falta pode se manifestar de diversas maneiras, entre elas uma maior propensão para o envolvimento com a delinquência”.

Ainda na mesma pesquisa, os autores citam o artigo “A função paterna no desenvolvimento do bebê”. “... a função paterna é fundamental para o desenvolvimento do bebê. Segundo os autores, tal função é dinâmica, já que o pai representa um sustentáculo afetivo para a mãe interagir com seu bebê e também, ainda nos primeiros anos da criança, deve funcionar como um fator de divisão da relação simbiótica mãe-bebê”.
Apenas estas duas conclusões seriam suficientes para sustentar a ideia de que a ausência do pai é catastrófica para o desenvolvimento infantil. Mas não é só isso. Há números e dados que demonstram essa realidade e há a vida diária, com seus milhares de exemplos de como um filho reage à falta do pai. Tristíssimo.
É por isso que nunca foi tão urgente em nossa sociedade, a necessidade de se manter a família unida. De se lutar pela preservação da presença do pai. De se fazer escolhas que sejam acertadas, ainda que sacrifiquem os próprios anseios, já que eles sempre devem ser relegados a segundo plano, quando uma vida está em jogo. Nossas justificativas egoístas e fúteis sempre se tornam discursos vazios, quando o que queremos justificar é um erro indesculpável.
P
or isso mães, não depende só de nós, infelizmente, mas depende muito de nossas escolhas também. Mesmo que você possa se enganar, achando que fez uma boa escolha, não custa nada checar sempre para ter a certeza de que aquele é o melhor pai, para a melhor coisa que já aconteceu em sua vida.

domingo, 18 de setembro de 2011

Nunca é demais

Já usei este espaço algumas vezes para falar sobre a violência contra a mulher. Mas parece que nunca é demais. A cada ano as estatísticas só aumentam e como não se sabe onde tudo isso vai parar, o jeito é discutir o assunto até que ele chegue pelo menos perto do esgotamento.
U
ma pesquisa divulgada no início deste ano pela Fundação Perseu Abramo aponta que 91% dos homens considera errado bater em mulher, seja qual for a situação. Mesmo assim, uma em cada cinco mulheres entrevistadas afirma já ter sofrido algum tipo de agressão, por parte de conhecidos ou desconhecidos. E uma em cada dez mulheres diz já ter sido espancada alguma vez na vida. Isso em números, mostra que a cada dois minutos, cinco mulheres sofrem violência no Brasil.

I
sso nos choca, nos deixa alarmados, nos surpreende. E só. Quando ocorre no vizinho, com alguém da família ou mesmo dentro de nossa casa, em muitos casos, fechamos os olhos e calamos. Aquele velho e ridículo ditado “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”, ajuda a ceifar inúmeras vidas, precocemente.

E
ssa violência contabilizada pela pesquisa é aquela que deixa marcas roxas pelo corpo. É aquela que se pode ver e que, consequentemente, escandaliza mais. Mas ainda há aquela violência velada, disfarçada, que é como um pequeno câncer a corroer a vida. Essa pode ser ainda mais cruel, porque a vítima, muitas vezes, demora a perceber que ela ocorre.

M
uitos companheiros conseguem inverter situações de discussão para parecer que a mulher é sempre culpada. Não é incomum ouvir, no relato destas vítimas, frases como: “se eu tivesse me comportado melhor, se eu tivesse feito o jantar, se eu tivesse ficado calada, se eu fosse mais inteligente, mais bonita”, e por aí vai.

E
stes agressores têm a capacidade de implantar pequenos explosivos na autoestima feminina. E aquele campo minado, aos poucos vai se deteriorando até que não sobre dignidade alguma para reagir. Trata-se de simples gestos do dia a dia, como a falta de diálogo, a falta de carinho, a falta de elogios, de incentivo, de amor. Aquele homem quer permanecer com aquela mulher, apenas para poder subjugá-la, sem no entanto, nutri-la com a quantidade necessária de afeto para que ela sobreviva.

Você pode pensar que isso não é violência, que é um exagero. Mas pare e pense em quantas mulheres você conhece cuja vida é norteada apenas pela ação mecânica de acordar, trabalhar, fazer coisas para os outros, dormir e assim, consecutivamente. Onde está aquele brilho nos olhos que a infância revelava nas brincadeiras de casinha, quando tudo o que se imaginava do futuro envolvia um homem maravilhoso e profundamente apaixonado?
Q
uando se convive com um agressor emocional, as palavras ditas e as não ditas, tornam-se como tapas, socos, pontapés e finalmente, tiros e facadas. Pode durar uma vida toda. Pode passar despercebido pela sociedade, especialmente nas classes sociais mais elevadas. Mas um dia, alguma coisa acontece e muda tudo. E geralmente, não é para melhor.
Se você sofre este ou algum outro tipo de agressão, ou se conhece alguém que sofre, não fique calada. Não permita que sua vida ou de outras pessoas seja destruída porque alguém não entendeu seu papel neste mundo como ser humano. Não deixe que as coisas boas que há na vida fiquem tão difusas que você já não saiba mais a diferença entre viver e apenas existir.
Queremos falar sobre coisas melhores e discutir assuntos mais leves. Mas enquanto esse dia não chega, nunca é demais falar.

domingo, 14 de agosto de 2011

Chegadas e partidas

A apresentadora Astrid Fontenelle tem um programa no canal GNT que se chama Chegadas e Partidas. Ela apresenta o programa diretamente de um aeroporto, o local mais propício para chegadas e partidas diárias. Ali, ela entrevista pessoas que estão indo para algum lugar, a passeio ou definitivamente, bem como pessoas que estão voltando, nas mesmas condições. Muitas vezes, ela se emociona com os relatos de histórias de vida, que culminam com o ambiente do aeroporto, sempre inconstante, sempre passageiro, nunca estático.
O
nome do programa e algumas histórias me fizeram pensar no assunto, não por acaso. No último mês estou experimentando a readaptação a uma cidade pequena. E não só isso. A uma vida pequena. Não literalmente, mas pequena, no sentido de simples, menor. E isso poderia representar uma catástrofe na vida de alguém mais cosmopolita e urbano. Mas para mim, nada é mais recompensador do que abrir a janela e me deparar com uma paisagem technicolor – céu azul, planície verde, plantação amarela – com o perdão da pieguice.

E
m minha partida trouxe pouquíssima coisa na mala. E nem por isso ela estava leve. Carinho dos amigos, boas lembranças, o aprendizado de viver em uma cidade que não para, a expectativa de voltar a morar, tantos anos depois, na mesma rua onde passei parte da minha infância e quase toda adolescência. É uma bagagem e tanto, quase paguei excesso de peso!
E pensando sobre estas coisas, me deparei com a realidade de um sem número de mulheres. Homens também. Mas preciso ser fiel às minhas leitoras! Por isso pensei nelas. E em como é difícil lidar, na vida diária, com tantas chegadas e partidas.
Precisamos enfrentar as partidas literais – pessoas queridas que morrem, filhos que vão morar longe, amigos que nunca mais encontramos, mudanças de cidade, estado, país. E também com as partidas emocionais – pessoas que estão ali, mas que deixaram de nos amar, a beleza que vai embora, os anos que não voltam mais. É bastante coisa para se pensar.
E ainda temos que lidar com as chegadas. Ah, as chegadas são tão melhores! E mesmo assim, nos causam estranheza. Um novo filho, que não sabemos em que tipo de mundo será recebido, um novo amor, que não sabemos se ficará para sempre, um novo emprego, que nem imaginamos quanto exigirá de nós, uma nova condição de vida, que nos torna aprendizes outra vez.
E
assim seguimos a vida, permeada de chegadas e partidas. Nem bem desfazemos uma mala, já estamos arrumando outra. Para algumas de nós, a vida parece mesmo um eterno acampamento, já que nunca conseguimos, de fato, encontrar um lugar onde valesse à pena esvaziar a bagagem.

P
or isso amiga leitora, e por ventura, algum leitor simpatizante, meu humilde conselho é: não tenha medo das chegadas e partidas. Aceite as partidas com a mesma serenidade que aceita as chegadas. E creia que as mudanças, por piores que pareçam, nem sempre são de todo ruins. Você pode pensar que é filosofia de para-choque de caminhão, mas na verdade é a maneira mais digna de se enfrentar o trânsito intenso da vida.

Q
uando partir, escolha com sabedoria o que colocar na mala. Não carregue ressentimentos, inimizades, lembranças tristes, preocupações e uma lista enorme de coisas a fazer. Quanto mais simples for a sua vida, mais você encontra tempo para o que é essencial. E quando chegar, certifique-se de estar preparada para o novo, sem contudo, deixar de surpreender-se com as pequenas coisas. A vida é desinteressante para quem tem expectativas demais, mas pode ser assustadora para quem nunca espera nada dela.
Depois de tirar tudo da mala e encontrar um lugar adequado para cada coisa, passe um pano úmido nela e deixe secar ao sol. De vez em quando, tire ela do armário e deixe arejar por algumas horas. Você nunca sabe quando terá que partir de novo. E mais do que isso: desejo que você jamais se acostume com uma vida medíocre, onde nunca há chegadas e partidas. Muito mais vale contar os anos através dos bilhetes de passagem que compramos, do que passar a vida sentados num banco de aeroporto.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Incompreensível

Faz dias que não escrevo. Descobri que além de enjoar de cheiros e de comidas, grávidas também podem enjoar de tarefas, como escrever, por exemplo. Mas, tudo bem. Um pequeno sacrifício para um grande prêmio!
O fato é que como mulheres passamos a vida escutando coisas sobre o que acontece quando engravidamos. Falam sobre os desejos, os mal-estares, os sentidos aguçados, as primeiras sensações de tudo, a mudança de perspectiva. E, se você é como eu, a maioria destas coisas sempre pareceu um tanto absurda. Exagero.
Mas tenho experimentado essa experiência e cheguei à conclusão de que elas tinham razão em tudo. A sensação de carregar alguém não é apenas estranha e maravilhosa, mas parece, acima de tudo, sobrenatural. É uma espécie de conexão incrível com a realidade, como se antes disso tudo tivesse sido permeado de momentos reais e momentos imaginários.
E explicando assim, pode parecer difícil de entender, mas não é tanto. Conexão com a realidade é a forma mais simples de explicar. Foi fazendo meu primeiro ultrassom que eu cheguei a esta conclusão. A sensação é surreal, mas a vida pareceu mais real do que nunca.
E no meio destes pensamentos, por um momento me ocorreu a seguinte pergunta: como uma mulher consegue carregar alguém dentro de si por nove meses e depois jogar numa lata de lixo, numa sarjeta, num rio? O que antes parecia apenas cruel, hoje parece incompreensível.
A única explicação que me ajuda a ter um vislumbre de resposta é que estas mulheres não têm conexão alguma com a realidade. Por algum motivo, seja qual for, aquela sensação de estar ligada a alguém por um laço que não é apenas imaginário, mas que realmente existe, não acontece para elas. Não justifica, pois há mães que sofrem traumas e problemas e nem por isso abandonam os filhos. Mas ajuda a explicar.
Porque é realmente difícil de entender que alguém escute aquele coraçãozinho disparado bater retumbante, veja aqueles movimentos, como se estivesse acenando e não sinta que sua vida está eternamente ligada àquela pessoa e que, portanto, jogá-lo fora é também lançar mão de uma parte de si. É incompreensível.
É incompreensível também, porque existem centenas de pessoas em cada cidade aguardando em uma interminável fila para adotar uma criança. Ora, mesmo sendo estranhamente absurdo uma mãe não querer o filho, a primeira opção deveria ser dá-lo a alguém que o deseja muito, antes mesmo de conhecê-lo.
Nossa sociedade é ambígua em tantos sentidos que favorecem esse tipo de atitude, que quase não é possível enumerá-los. Apenas para se ter um vislumbre, podemos falar sobre como as campanhas de controle de natalidade são ineficazes, enquanto o apelo midiático ao sexo irresponsável é certeiro.
Se abrir mão dos filhos de forma violenta (como abandonar recém nascidos na calçada) se tornou uma prática comum em nosso País, será que não está na hora de discutir uma política pública que contemple essas pequenas criaturas incapazes de se defender? Essa demora dos governos em tocar no assunto é no mínimo, incompreensível.