segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Sexo frágil?!


Acho interessante quando alguém, em plena vigência da pós-modernidade chama as mulheres de “sexo frágil”. Deveria ser, supostamente. Suportamos menos peso e temos alguma dificuldade com vidros de azeitona e portas emperradas, mas definitivamente o estereótipo que já nos definiu, no passado, como sexo frágil, não existe mais.
A
companhe o raciocínio. Não vamos ao médico enquanto uma dor não vier acompanhada de pelo menos mais um sintoma real. Suportamos a jornada dupla de trabalho. Temos extensos e dolorosos trabalhos de parto e não fugimos deles, a menos que seja preciso. Preferimos sempre a verdade, mesmo que ela não se encaixe em nosso planejamento. Temos um planejamento. Nos acabamos de chorar no travesseiro por uma noite inteira, mas pela manhã um pouco de gelo e um bom corretivo resolvem nosso problema. Entendemos, desde muito cedo, que cada escolha representa uma renúncia. Somos capazes de morrer de amor e tristeza por filhos, maridos e famílias, mas aprendemos a renascer, sempre que necessário. Onde está a fragilidade em tudo isso?

A
ideia do sexo frágil é tentadora. Faz parte de uma utopia que criamos. Queremos mesmo ser frágeis, protegidas, amadas, veneradas, consoladas e cuidadas como se fôssemos feitas de cristal. Mas quando não somos, sacudimos a poeira e seguimos em frente, fazendo por nós mesmas, aquilo que alguém deixou de fazer. Não é à toa que mundo afora, há milhares de mulheres que chefiam a família porque o marido ou companheiro foi embora. E dão conta de cinco, seis, oito filhos, da casa e de um emprego que banque tudo isso. Força total!

D
e fato, cresceu o número de mulheres que chefiam a casa. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio de 2009, divulgados este ano pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que de 2001 a 2009, a proporção de famílias chefiadas por mulheres no Brasil subiu de aproximadamente 27% para 35% do total. São mulheres solteiras, separadas ou viúvas que têm filhos, solteiras sem filhos, morando sozinhas, entre outras. Mas o perfil que mais chama a atenção é o das mulheres casadas chefiando a família, mesmo tendo um marido ou companheiro em casa, com ou sem filhos. Em 2009, 14,2% dos casais com ou sem filhos eram chefiados por mulheres. Nem sempre é uma questão de escolha, mas quando preciso, encaramos a nova realidade que de alguma forma, se estabeleceu na sociedade.

D
urante muitos e muitos anos ficamos deste lado do rio, esperando que um homem forte e gentil nos ajudasse a atravessar. Só que isso não aconteceu. E assim, construímos um pedaço significativo da História da humanidade, através da nossa luta e da coragem de enfrentar desafios, paradigmas e tabus.

A
inda apreciamos que nos abram a porta do carro, que carreguem nossas compras, que paguem a conta do jantar. Porém, não permitimos mais que estas atitudes nos tornem dependentes ou submissas. Com uma boa parcela de exceções, é claro, hoje sabemos o que queremos e o que devemos fazer para chegar lá.

Q
uando você se sentir terrivelmente tentada a se debruçar sobre um problema e desistir lembre-se: nada define melhor uma mulher do que a sua força. Em algum lugar do seu coração existe uma rocha que não se despedaça por qualquer intempérie e que a ajudará a manter-se em pé, quando tudo o mais estiver desmoronando. É um excelente pensamento para começar um novo ano, que está quase aí e quem sabe até, uma nova vida.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Escolhendo bons pais


Às vésperas de ser mãe, se pensa em muita coisa. Chego a concluir que sempre que surge um filho, surge uma nova neurose. Porque passam coisas pela cabeça que nunca haviam passado antes. Mas pensar é bom, refletir, melhor ainda.
E
aí, no meio de uma dessas reflexões, fiquei a par de um antigo ditado canadense que diz: “quando o pai falta, o filho manca”. E tive um pouco de náusea. Não enjoo, daqueles terríveis do início da gravidez. Náusea mesmo, como se estivesse em uma roda gigante de alta velocidade.

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orque isso significa, que não importa quão boa mãe você seja, o quanto você se esforce e quantas medalhas de honra ao mérito ganhe pela educação de seus filhos. Se faltar o pai, sempre faltará alguma coisa. E então lembro que isso não depende apenas da gente. Depende deles e das decisões que tomam.

Hoje em dia é comum ouvir histórias sobre mães que abandonam os filhos, que os rejeitam ou que são negligentes na sua criação. Mas graças a Deus, isso ainda é exceção. A grande maioria das mães é devotada à criação dos filhos, trabalhando com o que têm de melhor para oferecer a eles. Mas sempre existiu e cada dia mais, ouve-se histórias de pais que abandonaram seus filhos. Parece ser mais simples para eles. Não carregam nada, apenas escolhem não participar e vão embora. Como se virar a esquina os livrasse daquela obrigação.
E então muitas mulheres são obrigadas a ser mães e pais. Quer dizer, se obrigam a tentar, porque por mais triste que seja a constatação, elas jamais conseguem. Há inúmeros estudos da psicologia sobre as consequências da ausência do pai, especialmente nos primeiros anos de vida da criança. E todos eles apresentam um prognóstico ruim para elas. Isso é assustador.
Em uma sociedade regida pelos princípios da competitividade e da relatividade é cada vez mais fácil produzir um filho e depois abandoná-lo. E as justificativas são inúmeras também. “Não quero mais o casamento, mas serei responsável pela criança”. Que tipo de responsabilidade é essa? Como alguém pode ser participante ativo da vida do filho, sem estar presente? Virtualmente? Ora, por favor. A virtualidade é sinal de progresso, mas não pode substituir a presença de alguém tão vital para o desenvolvimento infantil.
A
penas para citar uma destas inúmeras pesquisas, li uma bastante completa, feita por dois psiquiatras gaúchos, David Bergmann e Marian Eizirik, chamada “Ausência paterna e sua repercussão na vida da criança e do adolescente”. Entre outros autores, citam o artigo “Da proteção generosa à vítima do vazio” para apoiar suas descobertas. “Segundo Muza, crianças que não convivem com o pai acabam tendo problemas de identificação sexual, dificuldades de reconhecer limites e de aprender regras de convivência social. Isso mostraria a 'dificuldade de internalização de um pai simbólico, capaz de representar a instância moral do indivíduo'. Tal falta pode se manifestar de diversas maneiras, entre elas uma maior propensão para o envolvimento com a delinquência”.

Ainda na mesma pesquisa, os autores citam o artigo “A função paterna no desenvolvimento do bebê”. “... a função paterna é fundamental para o desenvolvimento do bebê. Segundo os autores, tal função é dinâmica, já que o pai representa um sustentáculo afetivo para a mãe interagir com seu bebê e também, ainda nos primeiros anos da criança, deve funcionar como um fator de divisão da relação simbiótica mãe-bebê”.
Apenas estas duas conclusões seriam suficientes para sustentar a ideia de que a ausência do pai é catastrófica para o desenvolvimento infantil. Mas não é só isso. Há números e dados que demonstram essa realidade e há a vida diária, com seus milhares de exemplos de como um filho reage à falta do pai. Tristíssimo.
É por isso que nunca foi tão urgente em nossa sociedade, a necessidade de se manter a família unida. De se lutar pela preservação da presença do pai. De se fazer escolhas que sejam acertadas, ainda que sacrifiquem os próprios anseios, já que eles sempre devem ser relegados a segundo plano, quando uma vida está em jogo. Nossas justificativas egoístas e fúteis sempre se tornam discursos vazios, quando o que queremos justificar é um erro indesculpável.
P
or isso mães, não depende só de nós, infelizmente, mas depende muito de nossas escolhas também. Mesmo que você possa se enganar, achando que fez uma boa escolha, não custa nada checar sempre para ter a certeza de que aquele é o melhor pai, para a melhor coisa que já aconteceu em sua vida.

domingo, 18 de setembro de 2011

Nunca é demais

Já usei este espaço algumas vezes para falar sobre a violência contra a mulher. Mas parece que nunca é demais. A cada ano as estatísticas só aumentam e como não se sabe onde tudo isso vai parar, o jeito é discutir o assunto até que ele chegue pelo menos perto do esgotamento.
U
ma pesquisa divulgada no início deste ano pela Fundação Perseu Abramo aponta que 91% dos homens considera errado bater em mulher, seja qual for a situação. Mesmo assim, uma em cada cinco mulheres entrevistadas afirma já ter sofrido algum tipo de agressão, por parte de conhecidos ou desconhecidos. E uma em cada dez mulheres diz já ter sido espancada alguma vez na vida. Isso em números, mostra que a cada dois minutos, cinco mulheres sofrem violência no Brasil.

I
sso nos choca, nos deixa alarmados, nos surpreende. E só. Quando ocorre no vizinho, com alguém da família ou mesmo dentro de nossa casa, em muitos casos, fechamos os olhos e calamos. Aquele velho e ridículo ditado “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”, ajuda a ceifar inúmeras vidas, precocemente.

E
ssa violência contabilizada pela pesquisa é aquela que deixa marcas roxas pelo corpo. É aquela que se pode ver e que, consequentemente, escandaliza mais. Mas ainda há aquela violência velada, disfarçada, que é como um pequeno câncer a corroer a vida. Essa pode ser ainda mais cruel, porque a vítima, muitas vezes, demora a perceber que ela ocorre.

M
uitos companheiros conseguem inverter situações de discussão para parecer que a mulher é sempre culpada. Não é incomum ouvir, no relato destas vítimas, frases como: “se eu tivesse me comportado melhor, se eu tivesse feito o jantar, se eu tivesse ficado calada, se eu fosse mais inteligente, mais bonita”, e por aí vai.

E
stes agressores têm a capacidade de implantar pequenos explosivos na autoestima feminina. E aquele campo minado, aos poucos vai se deteriorando até que não sobre dignidade alguma para reagir. Trata-se de simples gestos do dia a dia, como a falta de diálogo, a falta de carinho, a falta de elogios, de incentivo, de amor. Aquele homem quer permanecer com aquela mulher, apenas para poder subjugá-la, sem no entanto, nutri-la com a quantidade necessária de afeto para que ela sobreviva.

Você pode pensar que isso não é violência, que é um exagero. Mas pare e pense em quantas mulheres você conhece cuja vida é norteada apenas pela ação mecânica de acordar, trabalhar, fazer coisas para os outros, dormir e assim, consecutivamente. Onde está aquele brilho nos olhos que a infância revelava nas brincadeiras de casinha, quando tudo o que se imaginava do futuro envolvia um homem maravilhoso e profundamente apaixonado?
Q
uando se convive com um agressor emocional, as palavras ditas e as não ditas, tornam-se como tapas, socos, pontapés e finalmente, tiros e facadas. Pode durar uma vida toda. Pode passar despercebido pela sociedade, especialmente nas classes sociais mais elevadas. Mas um dia, alguma coisa acontece e muda tudo. E geralmente, não é para melhor.
Se você sofre este ou algum outro tipo de agressão, ou se conhece alguém que sofre, não fique calada. Não permita que sua vida ou de outras pessoas seja destruída porque alguém não entendeu seu papel neste mundo como ser humano. Não deixe que as coisas boas que há na vida fiquem tão difusas que você já não saiba mais a diferença entre viver e apenas existir.
Queremos falar sobre coisas melhores e discutir assuntos mais leves. Mas enquanto esse dia não chega, nunca é demais falar.

domingo, 14 de agosto de 2011

Chegadas e partidas

A apresentadora Astrid Fontenelle tem um programa no canal GNT que se chama Chegadas e Partidas. Ela apresenta o programa diretamente de um aeroporto, o local mais propício para chegadas e partidas diárias. Ali, ela entrevista pessoas que estão indo para algum lugar, a passeio ou definitivamente, bem como pessoas que estão voltando, nas mesmas condições. Muitas vezes, ela se emociona com os relatos de histórias de vida, que culminam com o ambiente do aeroporto, sempre inconstante, sempre passageiro, nunca estático.
O
nome do programa e algumas histórias me fizeram pensar no assunto, não por acaso. No último mês estou experimentando a readaptação a uma cidade pequena. E não só isso. A uma vida pequena. Não literalmente, mas pequena, no sentido de simples, menor. E isso poderia representar uma catástrofe na vida de alguém mais cosmopolita e urbano. Mas para mim, nada é mais recompensador do que abrir a janela e me deparar com uma paisagem technicolor – céu azul, planície verde, plantação amarela – com o perdão da pieguice.

E
m minha partida trouxe pouquíssima coisa na mala. E nem por isso ela estava leve. Carinho dos amigos, boas lembranças, o aprendizado de viver em uma cidade que não para, a expectativa de voltar a morar, tantos anos depois, na mesma rua onde passei parte da minha infância e quase toda adolescência. É uma bagagem e tanto, quase paguei excesso de peso!
E pensando sobre estas coisas, me deparei com a realidade de um sem número de mulheres. Homens também. Mas preciso ser fiel às minhas leitoras! Por isso pensei nelas. E em como é difícil lidar, na vida diária, com tantas chegadas e partidas.
Precisamos enfrentar as partidas literais – pessoas queridas que morrem, filhos que vão morar longe, amigos que nunca mais encontramos, mudanças de cidade, estado, país. E também com as partidas emocionais – pessoas que estão ali, mas que deixaram de nos amar, a beleza que vai embora, os anos que não voltam mais. É bastante coisa para se pensar.
E ainda temos que lidar com as chegadas. Ah, as chegadas são tão melhores! E mesmo assim, nos causam estranheza. Um novo filho, que não sabemos em que tipo de mundo será recebido, um novo amor, que não sabemos se ficará para sempre, um novo emprego, que nem imaginamos quanto exigirá de nós, uma nova condição de vida, que nos torna aprendizes outra vez.
E
assim seguimos a vida, permeada de chegadas e partidas. Nem bem desfazemos uma mala, já estamos arrumando outra. Para algumas de nós, a vida parece mesmo um eterno acampamento, já que nunca conseguimos, de fato, encontrar um lugar onde valesse à pena esvaziar a bagagem.

P
or isso amiga leitora, e por ventura, algum leitor simpatizante, meu humilde conselho é: não tenha medo das chegadas e partidas. Aceite as partidas com a mesma serenidade que aceita as chegadas. E creia que as mudanças, por piores que pareçam, nem sempre são de todo ruins. Você pode pensar que é filosofia de para-choque de caminhão, mas na verdade é a maneira mais digna de se enfrentar o trânsito intenso da vida.

Q
uando partir, escolha com sabedoria o que colocar na mala. Não carregue ressentimentos, inimizades, lembranças tristes, preocupações e uma lista enorme de coisas a fazer. Quanto mais simples for a sua vida, mais você encontra tempo para o que é essencial. E quando chegar, certifique-se de estar preparada para o novo, sem contudo, deixar de surpreender-se com as pequenas coisas. A vida é desinteressante para quem tem expectativas demais, mas pode ser assustadora para quem nunca espera nada dela.
Depois de tirar tudo da mala e encontrar um lugar adequado para cada coisa, passe um pano úmido nela e deixe secar ao sol. De vez em quando, tire ela do armário e deixe arejar por algumas horas. Você nunca sabe quando terá que partir de novo. E mais do que isso: desejo que você jamais se acostume com uma vida medíocre, onde nunca há chegadas e partidas. Muito mais vale contar os anos através dos bilhetes de passagem que compramos, do que passar a vida sentados num banco de aeroporto.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Incompreensível

Faz dias que não escrevo. Descobri que além de enjoar de cheiros e de comidas, grávidas também podem enjoar de tarefas, como escrever, por exemplo. Mas, tudo bem. Um pequeno sacrifício para um grande prêmio!
O fato é que como mulheres passamos a vida escutando coisas sobre o que acontece quando engravidamos. Falam sobre os desejos, os mal-estares, os sentidos aguçados, as primeiras sensações de tudo, a mudança de perspectiva. E, se você é como eu, a maioria destas coisas sempre pareceu um tanto absurda. Exagero.
Mas tenho experimentado essa experiência e cheguei à conclusão de que elas tinham razão em tudo. A sensação de carregar alguém não é apenas estranha e maravilhosa, mas parece, acima de tudo, sobrenatural. É uma espécie de conexão incrível com a realidade, como se antes disso tudo tivesse sido permeado de momentos reais e momentos imaginários.
E explicando assim, pode parecer difícil de entender, mas não é tanto. Conexão com a realidade é a forma mais simples de explicar. Foi fazendo meu primeiro ultrassom que eu cheguei a esta conclusão. A sensação é surreal, mas a vida pareceu mais real do que nunca.
E no meio destes pensamentos, por um momento me ocorreu a seguinte pergunta: como uma mulher consegue carregar alguém dentro de si por nove meses e depois jogar numa lata de lixo, numa sarjeta, num rio? O que antes parecia apenas cruel, hoje parece incompreensível.
A única explicação que me ajuda a ter um vislumbre de resposta é que estas mulheres não têm conexão alguma com a realidade. Por algum motivo, seja qual for, aquela sensação de estar ligada a alguém por um laço que não é apenas imaginário, mas que realmente existe, não acontece para elas. Não justifica, pois há mães que sofrem traumas e problemas e nem por isso abandonam os filhos. Mas ajuda a explicar.
Porque é realmente difícil de entender que alguém escute aquele coraçãozinho disparado bater retumbante, veja aqueles movimentos, como se estivesse acenando e não sinta que sua vida está eternamente ligada àquela pessoa e que, portanto, jogá-lo fora é também lançar mão de uma parte de si. É incompreensível.
É incompreensível também, porque existem centenas de pessoas em cada cidade aguardando em uma interminável fila para adotar uma criança. Ora, mesmo sendo estranhamente absurdo uma mãe não querer o filho, a primeira opção deveria ser dá-lo a alguém que o deseja muito, antes mesmo de conhecê-lo.
Nossa sociedade é ambígua em tantos sentidos que favorecem esse tipo de atitude, que quase não é possível enumerá-los. Apenas para se ter um vislumbre, podemos falar sobre como as campanhas de controle de natalidade são ineficazes, enquanto o apelo midiático ao sexo irresponsável é certeiro.
Se abrir mão dos filhos de forma violenta (como abandonar recém nascidos na calçada) se tornou uma prática comum em nosso País, será que não está na hora de discutir uma política pública que contemple essas pequenas criaturas incapazes de se defender? Essa demora dos governos em tocar no assunto é no mínimo, incompreensível.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

A importância da mãe



Já é de praxe da publicidade em geral, comemorar massivamente o dia das mães neste mês de maio. Estamos acostumados. Levamos automaticamente a questão para o lado dos presentes e lembrancinhas. Mas a data merece uma reflexão mais ampla.
Minha geração reclama muito dos pais e das mães, porque talvez tenha sido a primeira permitida a fazer isso. Reclama que foram autoritárias, insensíveis, exigentes, que se esqueceram de quando eram jovens. E elas sempre dizem: um dia você vai ser mãe, vai entender o que estou dizendo. Nem chega a tanto. Quando se cresce um pouco mais e se tem uma carga maior de responsabilidade, nem é preciso ter filhos para compreender os erros cometidos pelos pais.
Uma das minhas lembranças mais queridas da infância envolve uma boneca chamada “roqueira”. Não se fabrica mais, mas ela era muito engraçada. O corpo dela era todo maleável, o cabelo era de lã azul e ela tinha velcro nas mãos, o que permitia que fosse colocada em diferentes posições. Eu tinha quatro anos e fui passar uns dias na casa de uma tia, em outra cidade. Quando voltei, a “roqueira” estava sentada na minha cama, de pernas cruzadas, com as mãos juntas sobre os joelhos e com certeza, minha mãe é que tinha “brincado” com ela. Eu era muito pequena, mas até hoje me lembro da sensação de “a minha mãe sentiu a minha falta”.
Outra coisa de que me lembro com saudade é que quando chegava perto da hora de dormir ou quando eu estava triste ou brava, minha mãe sentava na cama em “posição de índio” e me colocava naquele vão entre o tronco e as pernas. Ela dizia “vem para o meinho”. E ali no “meinho” a vida era um pouco mais fácil. Hoje em dia, quando as coisas se complicam, eu penso em como seria bom ainda caber no “meinho”, para que a vida se tornasse, outra vez, um pouco mais fácil. Mas, além de não caber mais ali, minha mãe também está a mil quilômetros de distância, então, não tem jeito mesmo.
Estas coisas me fazem pensar sobre a importância da mãe para o desenvolvimento do ser humano. Muitos dos monstros cruéis que tiram vidas sem piedade são pessoas que não tiveram mãe ou que tiveram uma relação complicada com ela. A mãe é alguém que, por mais que cometa erros ensina a pessoa a ser humana. É ela quem apresenta o mundo ao pequeno ser e mostra a ele como viver em sociedade. Caso ela falhe neste sentido, ele talvez nunca seja sociável. Mas em alguma coisa elas sempre acertam, ou então não haveria tantas pessoas boas no mundo, para fazer contraponto às que são más.
Diariamente a vida de milhares de mães ao redor do mundo é mutilada pela perda de filhos de maneira brutal. Impossível não lembrar nesta hora das mães de Realengo, no Rio de Janeiro, que no mês passado tiveram os filhos arrancados de seu convívio por um psicótico, cuja mãe biológica sofria de esquizofrenia, enquanto era viva. Estas mães, de braços vazios, jamais terão suas feridas curadas, embora talvez um dia, elas parem se sangrar.
Como estas há tantas e tantas mães com histórias tristes, de filhos mortos pelo tráfico, pela violência urbana, no trânsito e doméstica, pela fatalidade, pela doença, pela depressão, pelos motivos mais diversos. Para estas, a data será de dor e talvez, ao encontrarem o conforto no abraço de outros filhos, no carinho dos amigos ou na fé, tenham a tristeza amenizada.
Para as demais, que a data seja alegre, comemorativa e intensa, afinal, ser mãe é certamente um dos maiores privilégios concedidos às mulheres. Quem nos criou certamente sabia que a vida não seria nada fácil, com tantos afazeres, exigências, com tanta exploração e desvirtuação de valores. E quem sabe por isso, nos deu esta tarefa intransferível de conceber a vida como presente supremo da existência. Como filhas e como mães é nosso dever aproveitar a data ao máximo. Então, aproveite!

sexta-feira, 29 de abril de 2011

O casamento real e os brasileiros que tropeçam na língua




O dia 29 de abril de 2011 certamente será um dos mais documentados da História. O olhar do mundo todo se voltou para a Inglaterra, onde o príncipe William se uniu à plebeia Kate, em uma cerimônia acompanhada por 1.900 convidados presentes e outros milhões de espectadores virtuais.
Nas rodas de conversas tupiniquins do dia, acompanhei muita coisa sendo dita e pouco proveito tirei. Foi um dia mesmo para morder a língua e calar. Descobri que a ignorância me irrita menos do que a pseudo-sabedoria e o discurso dos teórico-socialistas.
É uma ironia sem precedentes, os brasileiros criticarem o casamento real, sob o argumento do dispêndio de dinheiro popular. Primeiro, porque a Inglaterra é um país de primeiro mundo, por isso, não há um contraste tão grande entre a pompa do casamento mais esperado dos últimos anos e a camada financeiramente menos favorecida da população. Já por aqui, onde sediaremos uma Copa do mundo, que não temos condições financeiras de sediar, quando os jogadores estiverem pisando em gramados que mais tarde serão usados apenas esporadicamente, haverá crianças passando fome e pessoas morrendo por causa da falta de condições básicas de sobrevivência.
Outro ponto a ser analisado é que talvez, eles também olhem para nós e fiquem pasmos da mesma forma, com respeito ao carnaval. Só que casamentos reais acontecem de vez em quando e o carnaval brasileiro todos os anos suga milhares de reais dos cofres públicos, para bancar uma festa que não serve apenas para atrair turistas e divulgar a cultura brasileira, como tanto se gosta de alardear por aí. Carnaval também é sinônimo de violência, promiscuidade, incentivo ao uso de drogas e abuso de álcool, dentre outras centenas de frivolidades e nem por isso, o mundo se escora na soleira da janela para falar mal das nossas tradições.
E se não bastasse tudo isso, o simples fato de quem eles têm uma cultura diferente da nossa já seria suficiente para simplesmente respeitarmos as decisões que tomam, uma vez que elas não ferem nenhum dos princípios de paz entre as nações. A Inglaterra vive sob o regime monárquico, portanto, nada mais correto do que cultivar as tradições pertinentes a ele.
Além de tudo isso foi um dia feliz para o povo inglês. Todos saíram às ruas, organizados e civilizados como são, para prestigiar o novo casal real. A monarquia mudou e os súditos fazem isso por respeito e admiração e não por obrigação, como foi no passado.
Nosso mundo já está bastante cheio de desgraças cotidianas e estamos fartos de falar sobre elas. É necessário conscientizar as pessoas sobre o desperdício do dinheiro? Sim, é. Mas estamos escolhendo muito mal nossos governantes para dar palpite em como os outros países são administrados. Precisamos mesmo é encarar o grande espelho da nossa realidade, cuja desigualdade social é horrenda.
Que o belíssimo casamento de William e Kate nos faça refletir sobre a importância do matrimônio, seja ele celebrado com títulos, coroas e requintes, ou na mais simples capela, do local mais distante e solitário. Que o amor deles dure verdadeiramente e que vá além do que nossos olhos admirados puderam ver. Isto, brasileiros e brasileiras, são verdadeiros votos de felicidade.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Novos tempos

Não tenho conta no Twitter, Facebook, Orkut (já tive e ouvi dizer que agora é coisa do passado) e em nenhuma outra rede social. Minha única conexão com o mundo virtual é este blog. Veja bem: não me orgulho disso. Conheço as necessidades reais de se acompanhar o tempo e suas rápidas mudanças e sei que fico a léguas de distância daqueles que se conectam com maior facilidade. Mas ainda não encontrei um meio de organizar meu tempo onde isso se encaixe. Eu quero mesmo é diminuir as tarefas, para sobrar mais tempo para o que é essencial. E um “bichinho virtual” para cuidar não me ajudaria nisso. Hoje, mas espero que isso mude, logo.

Enfim, estou refletindo sobre essas mutações tecnológicas tão rápidas. Conheci a internet quando fui para a faculdade. Minha amiga Vivi criou uma conta de e-mail para mim, que utilizo até hoje. Eu morava em regime de internato, então outras três garotas dividiam o quarto comigo. Ninguém tinha celular. A televisão ficava em um centro de entretenimento, junto com uma sala de jogos de mesa. Se eu quisesse assistir telejornais, tinha que ir até lá. Eu não tinha computador pessoal e a faculdade ficava em uma fazenda a 15 km de distância da cidade mais próxima. Meus trabalhos eram entregues em disquete. Muitos eram feitos à mão, mesmo. Faz sete anos que me formei. Outro dia li uma troca de recados entre duas pessoas que moram e estudam lá atualmente, dizendo assim: “meu pendrive precisa visitar o seu MacBook para saber das novidades”. Sete anos é tanto tempo assim? Fiquei quase chocada.

O fato é que as coisas acontecem de maneira muito rápida, verdadeiramente. E isso é bom, mas pode ser ruim, para quem tem dificuldade de acompanhar o tempo. Algumas pessoas aceitam com maior facilidade, outras adoecem porque não conseguem absorver a demanda de tempo exigida, ironicamente, pela tecnologia. Era para a tecnologia facilitar a vida, mas para quem não sabe usar, ela apenas preenche pequenos espaços de tempo, até que “pessoa ocupada” vira sinônimo de “pessoa moderna”.

Mês passado o Japão sofreu um terremoto seguido de tsunami de proporções catastróficas. As pessoas não ficaram sabendo – elas viram em tempo real, transmitido pela televisão, ou via internet, por computadores, celulares ou tablets. Há apenas 10 anos isso seria quase impensável. Existia um caminho para que a notícia fosse exibida: pauta/produção/decupagem/edição/exibição. Hoje isso é praticamente arcaico. As pessoas fazem notícia pelas redes sociais em tempo real, sem intermediários. O papel do jornalista é muito mais interpretativo do que demonstrativo, porque quase todo mundo já sabe o que aconteceu, eles apenas querem saber o que você pensa sobre isso e qual é a sua maneira de se conectar à realidade.

Isso dificulta bastante a profissão, já que precisamos nos reciclar diariamente. Mas facilita bastante no tocante às fontes. Há fontes saltando da tela o tempo todo e isso enriquece as reportagens, as crônicas, os artigos. A informação nunca foi tão acessível, resta saber selecionar e aí podemos ter sérios problemas.

De qualquer forma, as mudanças estão aí e o que se pode fazer é tirar o melhor proveito delas, para que nos sirvam e não precisemos servi-las. Os verdadeiros sábios tecnológicos são aqueles capazes de viver sem a tecnologia, caso ela falte. E tomara que isso não aconteça, ou deixarei de existir virtualmente. Contraditório não? Nem tanto. Demandas de novos tempos.