quinta-feira, 31 de março de 2011

O grande Deus das pequenas coisas




Há pessoas que acreditam que Deus não intervém nas pequenas coisas do homem e nem que se revela através da prática religiosa. Acreditam que Deus pode ser encontrado somente através da razão. São os deístas. Há também quem acredite que Deus se manifesta apenas nas grandes oportunidades, nos milagres populares, como a cura e o livramento da morte. São os da turma de Tomé, que precisava ver para crer.
Sempre imaginei Deus como um ser coletivo, que se manifesta de maneira coletiva e que se dá a conhecer através da pluralidade. Sei que Ele é um Deus pessoal e que se preocupa com as mínimas coisas, porque em minha vida há uma imensidão de pequenas coisas feitas por Deus, escondidas entre aquelas que são maiores. Mas, por algum motivo, por algum tempo, imaginei Deus como alguém muito ocupado. Talvez ocupado demais para mim. Então passei a pedir a Deus que me fizesse voltar a entender o quanto Ele é meu Pai, mesmo tendo tantos filhos, tão amados quanto eu sou. Não pedi exemplos ou demonstrações. Pedi apenas a sensação. Pedi apenas que Ele me dissesse, de alguma maneira audível, o quanto isso é um fato, uma realidade. Sei que não preciso dizer a Deus como fazer as coisas, então apenas pedi e esperei.
Durante a espera, que não foi longa, mas muito dolorosa, como muitas outras são, aconteceram várias coisas difíceis de lidar, querendo me mostrar o contrário daquilo que estava pedindo – "Deus está muito ocupado" – voltei a pensar. E o sentimento de querer reduzir Deus, que é tão grande e poderoso a uma característica tão humana, que é o excesso de trabalho é ainda pior do que senti-Lo distante. "Deus nunca está ocupado demais para você": racionalizei dias a fio.
Em meio à minha espera, didática e reveladora, um dia, assim, como em outro qualquer, eu senti que Deus estava agindo particularmente em minha vida, permitindo as coisas que não são tão boas, para que eu saiba que Ele espera mais de mim do que tenho oferecido. Deus é aquele Pai que se senta com seu pequeno filho para desenhar e que mesmo tentado a pegar na frágil mãozinha e terminar de uma vez os traços sofríveis, para que alguma beleza apareça, enfim, no papel, apenas observa. Se o filho pedir, Ele vai intervir e ajudar, mas jamais completará o desenho do filho, porque Deus deseja ardentemente que ele seja capaz de fazer isso sozinho e finalmente, aprenda.
Então, quando, depois de dias e dias refletindo, cheguei a esta conclusão, Deus achou que era a hora de exemplificar. Porque o processo educativo é reflexivo, mas também é prático. Tenho tendinite no braço direito. Às vezes ela aparece para me mostrar os efeitos de uma profissão que faz uma pessoa ficar sentada em frente ao computador, oito horas por dia, cinco dias por semana. Moro na cidade de São Paulo, onde o Sistema Único de Saúde é caótico e não tenho plano de saúde. Da última vez que tive tendinite há anos, estava no Rio Grande do Sul onde meu plano de saúde funciona. Fui atendida, medicada e ganhei alguns dias de descanso, porque a melhor solução para a tendinite é interromper o esforço repetitivo.
Quando a crise começou, há alguns dias, fiquei bastante preocupada, porque sem um atestado médico, eu não poderia parar de digitar, que é basicamente o que faço o dia inteiro. A dor foi aumentando. Uma bola surgiu no músculo, logo atrás do ombro. Não acho posição para dormir. Os dedos no teclado fazem a bola quase querer quicar. Cheguei a pensar no absurdo de ir a um hospital público. Quem conhece São Paulo sabe por que isso seria um absurdo. Mas a confiança adquirida nos dias de provação me fez acreditar que alguma solução inesperada surgiria. E ela surgiu.
O departamento de Recursos Humanos da empresa onde trabalho me chamou para dizer que descobriram em meus registros, nove dias de férias pendentes, a serem tirados imediatamente. Esses dias são referentes ao ano de 2009. E eles descobriram apenas agora, justamente no momento em que eu mais precisava. Tentei não esboçar nenhuma reação anormal, mas minha vontade era de chorar. Chorar de emoção, como a criança que recebe o seu primeiro diploma. Enfim, se completa um ciclo de aprendizagem.
Por esta e por inúmeras experiências sei que Deus é pessoal. Sei que Ele se preocupa com coisas que nem eu mesma dou a devida importância. Sei também, que possivelmente, esta não será a última vez que precisarei que Ele me lembre disto. Mas me sinto feliz e aliviada, por saber que mesmo em um mundo tão populoso, tão cheio de catástrofes, onde pessoas sofrem tragédias pessoais ou coletivas a todo instante, Deus tem tempo para minha tendinite. Empiricamente (mesmo que não fosse necessário) eu sei que Ele é o grande Deus das pequenas coisas.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Apaixonadamente

Há muitas maneiras de ser militante do feminismo. Se você encara o feminismo como um movimento que luta pelos direitos das mulheres, então você é uma pessoa equilibrada e merece assistir a este vídeo. Se por outro lado, você é daquelas pessoas que se tornou feminista para combater o machismo e acabou se tornando pior do que os militantes daquele, você precisa ver este vídeo. É longo, mas cada palavra vale à pena. (Bem embaixo dele, em view subtitles, você pode escolher a legenda em português).


quarta-feira, 16 de março de 2011

A fidelidade é a chave e não a fechadura

Procurando algo interessante para assistir na televisão, me deparei com uma entrevista feita pela apresentadora Marília Gabriela em seu programa homônimo no canal GNT. A entrevistada era uma psicanalista cujo nome me recuso a citar, pelo simples fato de que as ideias dela não merecem publicidade.
Ela estava lá falando sobre relacionamentos e segundo ela, o problema do casamento é a ilusão do amor romântico. Até aí posso concordar. Muitos casamentos não dão certo porque as pessoas entram neles com uma elevada expectativa de que a paixão será contínua e em grande parte, a rotina demonstra outra realidade. Mas o que me chocou é que ela prosseguiu dizendo que a exclusividade dentro do casamento é uma ilusão e que se a pessoa amada preenche suas necessidades enquanto está com você, o que ela faz depois disto é problema dela e não seu.
Além de chocada fiquei revoltada, porque uma criatura destas consegue vender suas ideias, em um mundo de pessoas cada vez mais perdidas em seus relacionamentos e formas de encarar a vida. Vivemos no século da relatividade. Os valores que servem para mim, não são os mesmos que servem para esta psicanalista. Mas afirmar com propriedade que os casamentos funcionariam melhor se as pessoas não exigissem exclusividade, com certeza, está entre as piores coisas que já ouvi.
E isso não é uma grande mentira apenas porque o casamento é um plano de Deus e por isso não pode ser relativizado e enquadrado em uma mentalidade tão deturpada. É mentira também, porque nenhum relacionamento que pressuponha respeito como qualidade indispensável para fluir com estabilidade pode admitir a infidelidade. A traição não é simplesmente a abertura do relacionamento para a entrada de outras pessoas. Ela é uma ferida aberta no vínculo de amizade entre o casal. E quando aberta ela sangra por muito tempo ou talvez, nem mesmo chegue a cicatrizar.
Eu desejei estar sentada na cadeira da Gabi por um minuto. Gostaria de olhar nos olhos daquela mulher e pedir para que ela dissesse isso a alguém cuja família foi destruída por um ato impensado ou mesmo por alguém que usou a sua liberdade de maneira irresponsável. Gostaria que ela dissesse isso a uma criança que viu a mãe ser morta por em um ato violento motivado pelo ciúme ou que teve que dizer adeus ao pai que a colocava na cama à noite para dormir. Gostaria que ela fosse capaz de explicar a sua “brilhante” teoria a alguém que mostrou o melhor de si para outra pessoa e que, por causa de uma traição, sentiu que tudo o que tinha não era bom o suficiente para o ser amado.
O casamento não é uma instituição falida. A família sempre será a célula mais importante da sociedade. E a sociedade está se destruindo justamente porque não percebe a gravidade disto. Um pensamento como este que a psicanalista incute através de seus livros e entrevistas é uma poeira tóxica pairando sobre nossas cabeças. A ideia de que o casamento só poderá ser realmente feliz quando ambos fizerem o que quiserem quando não estiverem juntos é uma das maiores mentiras que se pode pregar irresponsavelmente por aí.
Duas pessoas que incluem em sua suposição de amor a cláusula da não exclusividade, jamais experimentarão a verdadeira liberdade que só pode acontecer quando a mente e o coração, em sintonia, escolhem o que é melhor para ambos. Liberdade é poder escolher conscientemente dedicar-se inteiramente a uma pessoa, mesmo tendo a opção de sair com outras. A utopia do relacionamento aberto nada mais é do que uma prisão, porque a pessoa só consegue se relacionar sendo infiel e desleal, da mesma forma que o viciado só encontra prazer na fissura da droga.
Ora, sejamos práticos. Se uma pessoa quer viver pulando de galho em galho, ela tem toda a liberdade do mundo para ficar solteira. Salvo raríssimas exceções, ninguém casa com uma arma apontada para a cabeça. Cada pessoa é livre para escolher viver só e sair com quantas pessoas quiser ou casar e fazer apenas uma pessoa feliz. Certamente é um desafio muito maior e exige muito esforço. O casamento não é autorrealizável. Ele exige dedicação e abnegação, mas a recompensa também é muito maior para quem faz esta opção.
A parte triunfal da entrevista para mim, e que desqualifica qualquer afirmação absurda dada pela entrevistada foi quando a Gabi perguntou a ela: você é casada? E ela respondeu: sim, pela terceira vez. Ou seja: se não funcionou para ela, vai funcionar para quem adquire os livros ou assimila as ideias dela? Não, não vai. Felizmente.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Uma nova revolução feminina

Atenção mulheres! Está na hora de descer do salto. Não, não estou falando sobre problemas ortopédicos ocasionados pelo uso exagerado de salto alto. Estou mesmo usando o sentido figurado e fazendo uma convocação extraordinária. Um estudo realizado pela Fundação Seade e pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) na região metropolitana de São Paulo apontou que embora a participação das mulheres no mercado de trabalho tenha crescido na última década, com grau de instrução superior ao dos homens, os salários delas continuam sendo menores.
Segundo a pesquisa, as mulheres ganham 75,7% do valor pago aos homens para o desempenho das mesmas funções. Ou seja, é para ficar bege, rosa chiclete e roxa de raiva, sim. Na prática, isto significa que mesmo saindo de madrugada e voltando à noite para casa, a fim de não perder seu espaço no mercado de trabalho, você continua recebendo menos do que os homens que fazem o mesmo percurso, porém, em sua maioria, sem precisar iniciar uma nova jornada ao chegarem em casa.
Sei que já falamos disto aqui. Mas uma coisa é ver que isso acontece com você, sua vizinha, sua prima e uma amiga da sua diarista. Outra coisa é um estudo apontar os vergonhosos números de um estudo feito na quinta maior cidade do mundo, onde se vê mulheres trabalhando em absolutamente todos os setores da geração de renda do País.
A esta altura, a pergunta que não quer calar é: por quê? Por que estamos sofrendo essa injustiça, se a ciência tem comprovado que nossa presença na cadeia produtiva é tão boa quanto, ou melhor que a dos homens? E isto não é mera suposição, como estão pensando aqueles que quase posso ver torcendo o nariz.
No primeiro semestre do ano passado, a Universidade de Duke, nos Estados Unidos, divulgou o resultado de uma pesquisa realizada com grupos de estudantes em que as mulheres se destacaram como melhores líderes nas atividades propostas. Recentemente, pesquisadores do MIT (Massachussetts Institute of Technology) e da Carnegie Mellon University concluíram, através de um estudo, que os grupos com maior número de mulheres têm mais inteligência coletiva (termo usado pelas duas instituições para definir o desempenho coletivo na realização de uma tarefa).
Para reforçar a tese, podemos utilizar também a opinião de Karen Pine, professora de Psicologia da Universidade de Hertfordshire, no Reino Unido, que lançou no final do ano passado, um livro chamado Sheconomics, que pode ser traduzido livremente como “ela e a economia”. De acordo com Pine, existem provas concretas da forte relação entre o sucesso financeiro das empresas e a presença de um número significativo de mulheres nos cargos mais altos.
O estudo do Seade/Dieese concluiu também que nos cargos com nível superior completo, a diferença de remuneração entre homens e mulheres é ainda maior: elas recebem 63,8% do valor pago a eles para as mesmas funções, menos que em 2000, quando esse percentual era de 65,2%. Isso mostra que precisamos, no mínimo, tomar uma providência urgente, antes de começarmos a pagar para engraxar as botas de nossos colegas de trabalho.
Este tipo de estatística só me faz acreditar realmente na velha história de que “Amélia é que era mulher de verdade”. Porque se temos que sair de casa para nos desgastar em empregos que nos cobram mais do que a eles, a fim de provarmos que merecemos estar lá e não vamos ganhar um valor justo por isso, temos que considerar a possibilidade de simplesmente desistir. Temos, rapidamente, de repensar os motivos que nos levam a buscar satisfação profissional. Temos que levantar urgentemente uma bandeira em prol de uma nova igualdade, que contemple direitos reais e não apenas o livre acesso ao mercado de trabalho.
Uma constatação destas me dá a impressão de que estamos sendo enganadas e continuamos acenando e sorrindo. Se a revolução para nos tornarmos iguais a eles nos trouxe tanto benefícios quanto prejuízos, possivelmente esteja na hora de uma nova revolução. Não uma revolução de armas e fogueiras, mas uma revolução de ideias, porque neste campo, o percentual é definitivamente favorável a nós.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Cisne Negro

Eu falo muito sobre filmes, mas não sou crítica de cinema, nem tenho a pretensão. Só que aprecio a sétima arte, quase um pouco mais do que as outras. E apesar de clichê, achei inevitável falar sobre Cisne Negro. A maioria dos filmes que são lançados durante um ano é apenas uma vírgula de entretenimento, em uma vida atribulada, mas Cisne Negro é uma tremenda pausa nessa regra. Cisne Negro é um enorme gancho de direita (sem alusão ao filme O Vencedor) em nossas convicções tão bem elaboradas sobre a vida.
Você já quis tanto alguma coisa, mas tanto, tanto, que ela conseguiu ebulir todo o resto de sua vida? Já apostou todas as suas fichas em algo sem o qual não imaginaria viver? Já depositou toda a sua confiança e devoção em um propósito, a ponto de ficar completamente fora do ar para qualquer coisa que não o envolvesse? Provavelmente sim. Talvez não com essa intensidade visceral, mas se está lendo, certamente lembrou-se de uma ocasião destas.
E se a resposta for realmente positiva, então você se identificou com o filme. Nina ficou tão focada em fazer um cisne negro perfeito para sua performance como bailarina na apresentação de Lago dos Cisnes, que em determinado momento achou que tinha se transformado em um. Quando as pernas dela se quebram, imaginariamente, no contexto de um surto psicótico, ficando arcadas como a de um cisne, você entende perfeitamente porque o Oscar de melhor atriz tinha de ser de Natalie Portman. Ninguém jamais fará aquele olhar de pavor como ela.
Mas, voltando à questão principal, o preço que Nina pagou para chegar onde queria foi alto demais. Ela precisou destituir-se de qualquer valor que sobrepujasse a importância de seu alvo. Precisou lançar mão de qualquer artifício que pudesse ser útil para torná-la um cisne negro perfeito. Precisou deformar o seu corpo, seu caráter e toda a sua vida para moldá-la ao seu grande objetivo.
E então você deve estar pensando: “ah, não, nunca cheguei a tanto”. E nesse ponto preciso lembrá-la ou lembrá-lo, de que todo alcoolismo começa com o primeiro copo; toda bulimia começa com a primeira náusea; todo adultério começa com o primeiro pensamento; todo grande roubo começa com um pequeno peso de papel. São os pequenos atos compulsórios que levam aos grandes vícios, salvo raras exceções.
Quando o objetivo que pretende alcançar faz você sacrificar a maioria das coisas que são importantes na vida, então, por melhor que ele seja, provavelmente, não vale à pena. Existe uma linha muito tênue entre a determinação e a loucura, quando o que se pretende está vazio de valores reais e crenças positivas. E isso me leva ao caso clássico de Hitler, que cria na supremacia da raça ariana e por isso matou milhões de pessoas.
Metas e objetivos são extremamente valiosos para a organização da vida. Não dá para caminhar por aí sem um foco. Quando uma pessoa perde o sentido das coisas que faz, costuma ficar perdida. Mas colocar expectativa demais nos eventos da vida causa um imenso sofrimento. Porque o casamento pode acabar, o emprego pode ser perdido, a casa pode desmoronar, o amigo pode trair, o exame pode dar positivo, a empresa pode falir, o sonho pode virar um pesadelo. E aí, se você apostou todas as suas fichas na mesma jogada, o chão vai sumir debaixo dos seus pés, o mundo vai desabar e todos os outros comparativos que se possa imaginar para a situação.
Claro que uma ruptura é sempre dolorosa. Só que ela não precisa ser desastrosa. Não precisa modificar a sua essência, mesmo que altere seu comportamento por um tempo. E esse equilíbrio só vai acontecer se você conseguir dosar o grau de determinação para realizar seus objetivos.
Deseje, creia, busque e aja, mas nunca permita que o seu desejo consuma você, no caminho para alcançá-lo. Existe uma diferença exponencial entre ser e parecer um cisne negro. Saiba identificá-la. Sua sanidade vale muito mais do que uma platéia aplaudindo em pé. Nisso, você pode apostar.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Às mulheres de 30 anos

Daqui a alguns meses terei 30 anos. Essa constatação me pegou de surpresa uma noite dessas, durante o ritual básico: escovar os dentes, lavar, tonificar e hidratar a pele, escovar o cabelo 32 vezes da raiz às pontas e vestir um pijama. Está bem, não é tão básico assim, mas é comum entre as mulheres. O fato é que foi naquele momento, entre o tônico e o hidratante que eu me dei conta do que são 30 anos de vida.
E parece que quase ninguém se dá conta disso. Ter 30 anos é quase como existir em lugar algum, sabe. Há músicas para mulheres de 40 anos. Há livros para mulheres de 50 que atingiram a menopausa. Há tributos para adolescentes que estão decidindo o que fazer da vida quando saírem do ensino médio. Mas ninguém se lembra das mulheres de 30, que não estão lá nem cá. Elas parecem apenas uma ponte entre a faculdade e a idade da loba. Ninguém nem nota.
Ainda posso lembrar de como era fácil dormir aos 16 anos. Bastava desligar o walkman e o abajur e pegar no sono. Sonhar então era mais fácil ainda. Agora parece simplesmente uma luta desenfreada contra uma manada (sim, manada) de ovelhas geneticamente modificadas que balem num tom tão agudo que é quase ultrassônico e correm milhas para não pular a cerquinha branca.
E não sei se foi o choque da percepção tardia ou este ensaio de ruga que se forma bem no cantinho dos olhos (mesmo quando não estou sorrindo) que me fizeram cair em profunda reflexão existencial. Eu tenho uma lista incompleta de coisas a fazer, que eu nem sei onde guardei e estou cumprindo os pré-requisitos da existência. Mas falta alguma coisa que talvez só quem esteja à beira dos 30 vai conseguir entender. Quem já passou por isso, talvez entenda, mas agora tem vontade de voltar e modificar as coisas, então, na verdade, nunca se sabe. Confuso não é? Nem tanto.
Repentinamente me dei conta de que os planos necessitam de certa urgência, porque 30 anos é uma coisa bem significativa. É metade de 60. É uma parte da vida. É a idade limite para a decisão de onde queremos chegar. Meus óvulos estão envelhecendo, minha profissão está envelhecendo, meus amigos estão envelhecendo. É praticamente uma oxidação em massa.
Não é o fato de envelhecer que incomoda. Talvez um pouco, mas não é o ponto principal. A questão é que chega um momento na vida em que as coisas têm que se resolver, têm que acontecer. As convenções sociais não servem apenas para nos oprimir e nos fazer desejar ser inseridos. Servem para cumprir as etapas da vida e consequentemente, causar realização. É difícil encontrar alguém que seja feliz sem cumpri-las.
Então, se você está perto dos 30 como eu, ou está exatamente nesta casa e também está com a lista incompleta, bem-vinda ao clube. Dizem que daqui a algum tempo passa e dizem também, que é a ansiedade que causa aquelas rugas terríveis. Então vamos tentar curtir um pouco essa passagem nebulosa, para ver o que acontece lá na frente, virando a curva. Pelo menos em tese, isso parece funcionar muito bem.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Para as fãs da saga Crepúsculo


Estive pensando sobre o fascínio causado pela saga Crepúsculo não só entre adolescentes, que é o suposto público-alvo dos filmes, mas entre mulheres e até homens em geral. Cada um tem seus motivos, mas suspeito que nada tem a ver com vampiros, lobisomens e coisas sobrenaturais.
E minha suspeita cresce quando vejo que entre os grupos enlouquecidos de fãs que se postam nas filas do cinema ou que colecionam tudo o que se refere à saga, estão mães de família, senhoras mesmo, segurando as pontas de seus cabelos e chorando à simples menção dos nomes de Robert Pattinson, Taylor Lautner e Kristen Stewart.
Tem muito de uma exagerada admiração a pessoas que elas nem se quer conhecem, mas acho que tem muito mais a ver com o romance. É, pode parecer um pouco clichê classificar assim, mas é um tipo de romance vicário, porque não há no mundo quem não deseje ser amada como Bella Swan, por quem os personagens estão dispostos a morrer o tempo todo e vice-versa.
E aquelas senhoras, que estão lá nas filas gritando, estão clamando por um pouco disso. Estão desejando que seus maridos ou companheiros sejam tão altruístas como o lobo que ama e não é devidamente correspondido ou como o vampiro que não aceita viver em um mundo onde “ela” não esteja. E então temos um enorme problema porque seria mais fácil acreditar que existem vampiros e lobisomens do que crer que existem Edwards ou Jacobs – e vai ser preciso que assista ao filme para entender isso.
Não estou recomendando, principalmente para as meninas, porque acho definitivamente que não são filmes para adolescentes. Há muita tensão sexual entre os personagens, além de fantasias maníaco-depressivas que podem influenciar essa classe de pessoas, que já enfrenta os desafios próprios da idade. Mas se não tiver outro jeito, acho que o melhor é mesmo assistir com os filhos e falar sobre essas coisas todas.
O fato é que os personagens principais estão o tempo todo se sacrificando uns pelos outros, abrindo mão, cedendo, correndo perigo e se doando completamente, sem reservas. E você não vê isso na vida real, pelo menos não como a regra. E então essa obsessão me faz crer que tudo não passa de uma fantasia feminina traduzida para os livros de Stephanie Mayer, que viraram uma série de filmes altamente lucrativos. É o sonho feminino personificado no amor entre uma menina comum, um vampiro sedutor e um lobo apaixonado.
Afinal, não sejamos hipócritas. Que mulher nunca sonhou com um homem que seja capaz de fazer absolutamente tudo por ela? Algumas de nós seriam capazes de se contentar com um que simplesmente fizesse metade disso. Certo, 30% então. Um que levantasse o sofá para você varrer embaixo e que fosse romântico o bastante para preparar um jantar ou abrir mão do controle remoto por algumas horas. Uau! Isso é tão Edward! Ou então um que dissesse belas palavras sem querer nada em troca, ou que parasse tudo para ouvir você por cinco minutos ininterruptos – tão, tão Jacob.
Vamos lá garotas, acordem! Isso não vai acontecer. Você vai encontrar em sua vida, muitos homens dispostos a algumas destas coisas, porém, não o tempo todo, como nos filmes. Você nunca vai ter um “imprinting” com uma pessoa que você não conhece, porque não é possível amar o conjunto de uma pessoa – suas qualidades e defeitos – sem conviver com ela o tempo mínimo, que seja. Se bem que quando conheci o meu marido, imediatamente, de alguma forma que não sei explicar, eu sabia que era “ele”. Então talvez essa parte tenha um pouquinho de realidade, confesso.
De qualquer maneira, o melhor a fazer é deixar que os filmes cumpram sua real função em nossa existência – a de entreter - e trabalhar da melhor maneira possível com aquilo que temos em mãos. Muita gente deixa de viver o amor verdadeiro, o real, o que é possível e palpável porque continua procurando um Edward ou um Jacob em um Maik Newton ou em um Eric.
E para quem não viu os filmes e está entendendo pouco do que leu, o que se pode dizer em resumo é: saia agora desse sofá que já tem as suas formas corporais desenhadas e olhe para seus amigos, vizinhos e colegas de trabalho (solteiros) com um pouco mais de condescendência. Quem sabe se o lobo apaixonado ou o vampiro devotado não está lá escondido, esperando ser descoberto?

Em construção

Todas as tragédias climáticas que atingiram o sudeste do Brasil e de forma mais traumática a região serrana do Rio de Janeiro me fizeram pensar. Pensar nas vítimas, nos que se foram, nos que perderam tudo, nos que perderam todos. Mas também naqueles que vão reconstruir. Naqueles que terão que começar do zero, que se obrigarão a ter forças para colocar tudo em pé outra vez.
Fico imaginando se vão querer colocar alicerces no mesmo lugar, se terão coragem de repetir o mesmo erro, não querendo julgar de quem é a culpa ou dividi-la em partes iguais entre governo e população. Apenas realmente fico conjeturando se vão querer as mesmas paredes, tudo exatamente igual ou se o que querem agora é transformar, esquecer e fazer tudo novo e diferente.
E então fico me questionando se é isso que fazemos diariamente. Nossa vida é toda planejada e vamos construindo paredes e escadas e varandas que muitas e muitas vezes se desfazem e viram poeira pelo ar. Construímos um quarto, pintamos, decoramos, penduramos retratos, enchemos vasos com lindas flores, mas de repente acontece alguma coisa inesperada e dolorosa e transforma nosso castelo em um amontoado de escombros.
É aí que acontece o dia seguinte. Muita lama, muita sujeira, muitos cacos para juntar, muitas feridas para curar. Mas ele está lá e temos que pensar em como colocar tudo no lugar e nos refazer, causando o menor dano possível. E é nesta hora que devemos planejar o que e como fazer novamente. Se vamos querer as mesmas cores, os mesmos móveis. Se vamos continuar pelo mesmo caminho que nos levou ao caos ou se é hora de mudar a planta e fazer um novo projeto.
Como mulheres temos ainda um “talento” especial de construir castelos nas nuvens, onde qualquer vento pode derrubar. Temos mais expectativas, esperamos mais dos outros, somos mais sensíveis às quedas. E ao mesmo tempo somos fortes o suficiente para carregar uma carga de tijolos e começar de novo. Talvez seja por isso que os homens tenham tanta dificuldade em nos entender. Eles apenas são ou não são fortes, ao passo que nós, respeitando-se as devidas exceções, somos frágeis como a pena e resilientes como o aço.
Em certo momento da vida percebemos então, que nossas escolhas já nos levam a paredes mais sólidas. Já conseguimos entender a dinâmica da construção da nossa existência e a decisão de que materiais usar se torna um pouco mais fácil. Aprendemos a selecionar os amigos, a cultivar a família, a admirar as pessoas certas, a administrar melhor as crises. E nem por isso, a construção estará terminada.
Nossa vida estará sempre em construção. Nunca chegará o momento da entrega das chaves. Sempre haverá o que resolver, sempre haverá um reparo, uma reforma e para muitos a reconstrução será constante. E isso não precisa ser ruim ou doloroso como é no caso de uma enchente. A construção diária de quem somos é um processo que embora não seja fácil, não precisa ser temido. O material de que somos feitos é bastante maleável e pode se moldar a novas situações, felizmente.