segunda-feira, 14 de março de 2011

Uma nova revolução feminina

Atenção mulheres! Está na hora de descer do salto. Não, não estou falando sobre problemas ortopédicos ocasionados pelo uso exagerado de salto alto. Estou mesmo usando o sentido figurado e fazendo uma convocação extraordinária. Um estudo realizado pela Fundação Seade e pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) na região metropolitana de São Paulo apontou que embora a participação das mulheres no mercado de trabalho tenha crescido na última década, com grau de instrução superior ao dos homens, os salários delas continuam sendo menores.
Segundo a pesquisa, as mulheres ganham 75,7% do valor pago aos homens para o desempenho das mesmas funções. Ou seja, é para ficar bege, rosa chiclete e roxa de raiva, sim. Na prática, isto significa que mesmo saindo de madrugada e voltando à noite para casa, a fim de não perder seu espaço no mercado de trabalho, você continua recebendo menos do que os homens que fazem o mesmo percurso, porém, em sua maioria, sem precisar iniciar uma nova jornada ao chegarem em casa.
Sei que já falamos disto aqui. Mas uma coisa é ver que isso acontece com você, sua vizinha, sua prima e uma amiga da sua diarista. Outra coisa é um estudo apontar os vergonhosos números de um estudo feito na quinta maior cidade do mundo, onde se vê mulheres trabalhando em absolutamente todos os setores da geração de renda do País.
A esta altura, a pergunta que não quer calar é: por quê? Por que estamos sofrendo essa injustiça, se a ciência tem comprovado que nossa presença na cadeia produtiva é tão boa quanto, ou melhor que a dos homens? E isto não é mera suposição, como estão pensando aqueles que quase posso ver torcendo o nariz.
No primeiro semestre do ano passado, a Universidade de Duke, nos Estados Unidos, divulgou o resultado de uma pesquisa realizada com grupos de estudantes em que as mulheres se destacaram como melhores líderes nas atividades propostas. Recentemente, pesquisadores do MIT (Massachussetts Institute of Technology) e da Carnegie Mellon University concluíram, através de um estudo, que os grupos com maior número de mulheres têm mais inteligência coletiva (termo usado pelas duas instituições para definir o desempenho coletivo na realização de uma tarefa).
Para reforçar a tese, podemos utilizar também a opinião de Karen Pine, professora de Psicologia da Universidade de Hertfordshire, no Reino Unido, que lançou no final do ano passado, um livro chamado Sheconomics, que pode ser traduzido livremente como “ela e a economia”. De acordo com Pine, existem provas concretas da forte relação entre o sucesso financeiro das empresas e a presença de um número significativo de mulheres nos cargos mais altos.
O estudo do Seade/Dieese concluiu também que nos cargos com nível superior completo, a diferença de remuneração entre homens e mulheres é ainda maior: elas recebem 63,8% do valor pago a eles para as mesmas funções, menos que em 2000, quando esse percentual era de 65,2%. Isso mostra que precisamos, no mínimo, tomar uma providência urgente, antes de começarmos a pagar para engraxar as botas de nossos colegas de trabalho.
Este tipo de estatística só me faz acreditar realmente na velha história de que “Amélia é que era mulher de verdade”. Porque se temos que sair de casa para nos desgastar em empregos que nos cobram mais do que a eles, a fim de provarmos que merecemos estar lá e não vamos ganhar um valor justo por isso, temos que considerar a possibilidade de simplesmente desistir. Temos, rapidamente, de repensar os motivos que nos levam a buscar satisfação profissional. Temos que levantar urgentemente uma bandeira em prol de uma nova igualdade, que contemple direitos reais e não apenas o livre acesso ao mercado de trabalho.
Uma constatação destas me dá a impressão de que estamos sendo enganadas e continuamos acenando e sorrindo. Se a revolução para nos tornarmos iguais a eles nos trouxe tanto benefícios quanto prejuízos, possivelmente esteja na hora de uma nova revolução. Não uma revolução de armas e fogueiras, mas uma revolução de ideias, porque neste campo, o percentual é definitivamente favorável a nós.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Cisne Negro

Eu falo muito sobre filmes, mas não sou crítica de cinema, nem tenho a pretensão. Só que aprecio a sétima arte, quase um pouco mais do que as outras. E apesar de clichê, achei inevitável falar sobre Cisne Negro. A maioria dos filmes que são lançados durante um ano é apenas uma vírgula de entretenimento, em uma vida atribulada, mas Cisne Negro é uma tremenda pausa nessa regra. Cisne Negro é um enorme gancho de direita (sem alusão ao filme O Vencedor) em nossas convicções tão bem elaboradas sobre a vida.
Você já quis tanto alguma coisa, mas tanto, tanto, que ela conseguiu ebulir todo o resto de sua vida? Já apostou todas as suas fichas em algo sem o qual não imaginaria viver? Já depositou toda a sua confiança e devoção em um propósito, a ponto de ficar completamente fora do ar para qualquer coisa que não o envolvesse? Provavelmente sim. Talvez não com essa intensidade visceral, mas se está lendo, certamente lembrou-se de uma ocasião destas.
E se a resposta for realmente positiva, então você se identificou com o filme. Nina ficou tão focada em fazer um cisne negro perfeito para sua performance como bailarina na apresentação de Lago dos Cisnes, que em determinado momento achou que tinha se transformado em um. Quando as pernas dela se quebram, imaginariamente, no contexto de um surto psicótico, ficando arcadas como a de um cisne, você entende perfeitamente porque o Oscar de melhor atriz tinha de ser de Natalie Portman. Ninguém jamais fará aquele olhar de pavor como ela.
Mas, voltando à questão principal, o preço que Nina pagou para chegar onde queria foi alto demais. Ela precisou destituir-se de qualquer valor que sobrepujasse a importância de seu alvo. Precisou lançar mão de qualquer artifício que pudesse ser útil para torná-la um cisne negro perfeito. Precisou deformar o seu corpo, seu caráter e toda a sua vida para moldá-la ao seu grande objetivo.
E então você deve estar pensando: “ah, não, nunca cheguei a tanto”. E nesse ponto preciso lembrá-la ou lembrá-lo, de que todo alcoolismo começa com o primeiro copo; toda bulimia começa com a primeira náusea; todo adultério começa com o primeiro pensamento; todo grande roubo começa com um pequeno peso de papel. São os pequenos atos compulsórios que levam aos grandes vícios, salvo raras exceções.
Quando o objetivo que pretende alcançar faz você sacrificar a maioria das coisas que são importantes na vida, então, por melhor que ele seja, provavelmente, não vale à pena. Existe uma linha muito tênue entre a determinação e a loucura, quando o que se pretende está vazio de valores reais e crenças positivas. E isso me leva ao caso clássico de Hitler, que cria na supremacia da raça ariana e por isso matou milhões de pessoas.
Metas e objetivos são extremamente valiosos para a organização da vida. Não dá para caminhar por aí sem um foco. Quando uma pessoa perde o sentido das coisas que faz, costuma ficar perdida. Mas colocar expectativa demais nos eventos da vida causa um imenso sofrimento. Porque o casamento pode acabar, o emprego pode ser perdido, a casa pode desmoronar, o amigo pode trair, o exame pode dar positivo, a empresa pode falir, o sonho pode virar um pesadelo. E aí, se você apostou todas as suas fichas na mesma jogada, o chão vai sumir debaixo dos seus pés, o mundo vai desabar e todos os outros comparativos que se possa imaginar para a situação.
Claro que uma ruptura é sempre dolorosa. Só que ela não precisa ser desastrosa. Não precisa modificar a sua essência, mesmo que altere seu comportamento por um tempo. E esse equilíbrio só vai acontecer se você conseguir dosar o grau de determinação para realizar seus objetivos.
Deseje, creia, busque e aja, mas nunca permita que o seu desejo consuma você, no caminho para alcançá-lo. Existe uma diferença exponencial entre ser e parecer um cisne negro. Saiba identificá-la. Sua sanidade vale muito mais do que uma platéia aplaudindo em pé. Nisso, você pode apostar.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Às mulheres de 30 anos

Daqui a alguns meses terei 30 anos. Essa constatação me pegou de surpresa uma noite dessas, durante o ritual básico: escovar os dentes, lavar, tonificar e hidratar a pele, escovar o cabelo 32 vezes da raiz às pontas e vestir um pijama. Está bem, não é tão básico assim, mas é comum entre as mulheres. O fato é que foi naquele momento, entre o tônico e o hidratante que eu me dei conta do que são 30 anos de vida.
E parece que quase ninguém se dá conta disso. Ter 30 anos é quase como existir em lugar algum, sabe. Há músicas para mulheres de 40 anos. Há livros para mulheres de 50 que atingiram a menopausa. Há tributos para adolescentes que estão decidindo o que fazer da vida quando saírem do ensino médio. Mas ninguém se lembra das mulheres de 30, que não estão lá nem cá. Elas parecem apenas uma ponte entre a faculdade e a idade da loba. Ninguém nem nota.
Ainda posso lembrar de como era fácil dormir aos 16 anos. Bastava desligar o walkman e o abajur e pegar no sono. Sonhar então era mais fácil ainda. Agora parece simplesmente uma luta desenfreada contra uma manada (sim, manada) de ovelhas geneticamente modificadas que balem num tom tão agudo que é quase ultrassônico e correm milhas para não pular a cerquinha branca.
E não sei se foi o choque da percepção tardia ou este ensaio de ruga que se forma bem no cantinho dos olhos (mesmo quando não estou sorrindo) que me fizeram cair em profunda reflexão existencial. Eu tenho uma lista incompleta de coisas a fazer, que eu nem sei onde guardei e estou cumprindo os pré-requisitos da existência. Mas falta alguma coisa que talvez só quem esteja à beira dos 30 vai conseguir entender. Quem já passou por isso, talvez entenda, mas agora tem vontade de voltar e modificar as coisas, então, na verdade, nunca se sabe. Confuso não é? Nem tanto.
Repentinamente me dei conta de que os planos necessitam de certa urgência, porque 30 anos é uma coisa bem significativa. É metade de 60. É uma parte da vida. É a idade limite para a decisão de onde queremos chegar. Meus óvulos estão envelhecendo, minha profissão está envelhecendo, meus amigos estão envelhecendo. É praticamente uma oxidação em massa.
Não é o fato de envelhecer que incomoda. Talvez um pouco, mas não é o ponto principal. A questão é que chega um momento na vida em que as coisas têm que se resolver, têm que acontecer. As convenções sociais não servem apenas para nos oprimir e nos fazer desejar ser inseridos. Servem para cumprir as etapas da vida e consequentemente, causar realização. É difícil encontrar alguém que seja feliz sem cumpri-las.
Então, se você está perto dos 30 como eu, ou está exatamente nesta casa e também está com a lista incompleta, bem-vinda ao clube. Dizem que daqui a algum tempo passa e dizem também, que é a ansiedade que causa aquelas rugas terríveis. Então vamos tentar curtir um pouco essa passagem nebulosa, para ver o que acontece lá na frente, virando a curva. Pelo menos em tese, isso parece funcionar muito bem.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Para as fãs da saga Crepúsculo


Estive pensando sobre o fascínio causado pela saga Crepúsculo não só entre adolescentes, que é o suposto público-alvo dos filmes, mas entre mulheres e até homens em geral. Cada um tem seus motivos, mas suspeito que nada tem a ver com vampiros, lobisomens e coisas sobrenaturais.
E minha suspeita cresce quando vejo que entre os grupos enlouquecidos de fãs que se postam nas filas do cinema ou que colecionam tudo o que se refere à saga, estão mães de família, senhoras mesmo, segurando as pontas de seus cabelos e chorando à simples menção dos nomes de Robert Pattinson, Taylor Lautner e Kristen Stewart.
Tem muito de uma exagerada admiração a pessoas que elas nem se quer conhecem, mas acho que tem muito mais a ver com o romance. É, pode parecer um pouco clichê classificar assim, mas é um tipo de romance vicário, porque não há no mundo quem não deseje ser amada como Bella Swan, por quem os personagens estão dispostos a morrer o tempo todo e vice-versa.
E aquelas senhoras, que estão lá nas filas gritando, estão clamando por um pouco disso. Estão desejando que seus maridos ou companheiros sejam tão altruístas como o lobo que ama e não é devidamente correspondido ou como o vampiro que não aceita viver em um mundo onde “ela” não esteja. E então temos um enorme problema porque seria mais fácil acreditar que existem vampiros e lobisomens do que crer que existem Edwards ou Jacobs – e vai ser preciso que assista ao filme para entender isso.
Não estou recomendando, principalmente para as meninas, porque acho definitivamente que não são filmes para adolescentes. Há muita tensão sexual entre os personagens, além de fantasias maníaco-depressivas que podem influenciar essa classe de pessoas, que já enfrenta os desafios próprios da idade. Mas se não tiver outro jeito, acho que o melhor é mesmo assistir com os filhos e falar sobre essas coisas todas.
O fato é que os personagens principais estão o tempo todo se sacrificando uns pelos outros, abrindo mão, cedendo, correndo perigo e se doando completamente, sem reservas. E você não vê isso na vida real, pelo menos não como a regra. E então essa obsessão me faz crer que tudo não passa de uma fantasia feminina traduzida para os livros de Stephanie Mayer, que viraram uma série de filmes altamente lucrativos. É o sonho feminino personificado no amor entre uma menina comum, um vampiro sedutor e um lobo apaixonado.
Afinal, não sejamos hipócritas. Que mulher nunca sonhou com um homem que seja capaz de fazer absolutamente tudo por ela? Algumas de nós seriam capazes de se contentar com um que simplesmente fizesse metade disso. Certo, 30% então. Um que levantasse o sofá para você varrer embaixo e que fosse romântico o bastante para preparar um jantar ou abrir mão do controle remoto por algumas horas. Uau! Isso é tão Edward! Ou então um que dissesse belas palavras sem querer nada em troca, ou que parasse tudo para ouvir você por cinco minutos ininterruptos – tão, tão Jacob.
Vamos lá garotas, acordem! Isso não vai acontecer. Você vai encontrar em sua vida, muitos homens dispostos a algumas destas coisas, porém, não o tempo todo, como nos filmes. Você nunca vai ter um “imprinting” com uma pessoa que você não conhece, porque não é possível amar o conjunto de uma pessoa – suas qualidades e defeitos – sem conviver com ela o tempo mínimo, que seja. Se bem que quando conheci o meu marido, imediatamente, de alguma forma que não sei explicar, eu sabia que era “ele”. Então talvez essa parte tenha um pouquinho de realidade, confesso.
De qualquer maneira, o melhor a fazer é deixar que os filmes cumpram sua real função em nossa existência – a de entreter - e trabalhar da melhor maneira possível com aquilo que temos em mãos. Muita gente deixa de viver o amor verdadeiro, o real, o que é possível e palpável porque continua procurando um Edward ou um Jacob em um Maik Newton ou em um Eric.
E para quem não viu os filmes e está entendendo pouco do que leu, o que se pode dizer em resumo é: saia agora desse sofá que já tem as suas formas corporais desenhadas e olhe para seus amigos, vizinhos e colegas de trabalho (solteiros) com um pouco mais de condescendência. Quem sabe se o lobo apaixonado ou o vampiro devotado não está lá escondido, esperando ser descoberto?

Em construção

Todas as tragédias climáticas que atingiram o sudeste do Brasil e de forma mais traumática a região serrana do Rio de Janeiro me fizeram pensar. Pensar nas vítimas, nos que se foram, nos que perderam tudo, nos que perderam todos. Mas também naqueles que vão reconstruir. Naqueles que terão que começar do zero, que se obrigarão a ter forças para colocar tudo em pé outra vez.
Fico imaginando se vão querer colocar alicerces no mesmo lugar, se terão coragem de repetir o mesmo erro, não querendo julgar de quem é a culpa ou dividi-la em partes iguais entre governo e população. Apenas realmente fico conjeturando se vão querer as mesmas paredes, tudo exatamente igual ou se o que querem agora é transformar, esquecer e fazer tudo novo e diferente.
E então fico me questionando se é isso que fazemos diariamente. Nossa vida é toda planejada e vamos construindo paredes e escadas e varandas que muitas e muitas vezes se desfazem e viram poeira pelo ar. Construímos um quarto, pintamos, decoramos, penduramos retratos, enchemos vasos com lindas flores, mas de repente acontece alguma coisa inesperada e dolorosa e transforma nosso castelo em um amontoado de escombros.
É aí que acontece o dia seguinte. Muita lama, muita sujeira, muitos cacos para juntar, muitas feridas para curar. Mas ele está lá e temos que pensar em como colocar tudo no lugar e nos refazer, causando o menor dano possível. E é nesta hora que devemos planejar o que e como fazer novamente. Se vamos querer as mesmas cores, os mesmos móveis. Se vamos continuar pelo mesmo caminho que nos levou ao caos ou se é hora de mudar a planta e fazer um novo projeto.
Como mulheres temos ainda um “talento” especial de construir castelos nas nuvens, onde qualquer vento pode derrubar. Temos mais expectativas, esperamos mais dos outros, somos mais sensíveis às quedas. E ao mesmo tempo somos fortes o suficiente para carregar uma carga de tijolos e começar de novo. Talvez seja por isso que os homens tenham tanta dificuldade em nos entender. Eles apenas são ou não são fortes, ao passo que nós, respeitando-se as devidas exceções, somos frágeis como a pena e resilientes como o aço.
Em certo momento da vida percebemos então, que nossas escolhas já nos levam a paredes mais sólidas. Já conseguimos entender a dinâmica da construção da nossa existência e a decisão de que materiais usar se torna um pouco mais fácil. Aprendemos a selecionar os amigos, a cultivar a família, a admirar as pessoas certas, a administrar melhor as crises. E nem por isso, a construção estará terminada.
Nossa vida estará sempre em construção. Nunca chegará o momento da entrega das chaves. Sempre haverá o que resolver, sempre haverá um reparo, uma reforma e para muitos a reconstrução será constante. E isso não precisa ser ruim ou doloroso como é no caso de uma enchente. A construção diária de quem somos é um processo que embora não seja fácil, não precisa ser temido. O material de que somos feitos é bastante maleável e pode se moldar a novas situações, felizmente.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Mulheres Perfeitas

Não sei se você já teve a oportunidade de assistir ao filme “Mulheres Perfeitas”, que tem no elenco algumas figurinhas conhecidas de Hollywood como Nicole Kidman, Matthew Broderick, Glenn Close e Bette Midler. O filme não é novo, mas assisti há pouco e fiquei pensando sobre o enredo improvável, mas intrigante.
O fato é que um casal se muda para uma pequena cidade do interior e aos poucos vai percebendo que as mulheres de lá parecem ter saído recentemente da caixa: corpo perfeito, cabelo de dar inveja, casa impecável, culinária de revista e sorrisos inabaláveis. Sem TPM, sem lágrimas, sem reclamações.
E para resumir, o casal descobre que se tratava de um plano muito bem arquitetado, para transformar as mulheres em robôs que fizessem e agissem apenas de acordo com a vontade de seus maridos. O plano era levado a cabo através da implantação de um chip no cérebro destas esposas, responsável pela execução do software “mulheres perfeitas”.
Gostos à parte, já que o filme ficou meio indeciso entre a comédia e o suspense, pode servir para uma breve reflexão. Basta olharmos para a História, para perceber que mesmo sem chip, muitas gerações de mulheres nasceram programadas para executar apenas uma tarefa durante toda a vida: fazer a vontade dos homens fossem eles maridos, pais, irmãos ou em qualquer outro tipo de relação.
Quando a “farsa” foi descoberta e o “chip” foi retirado, a situação mudou, mas não necessariamente melhorou. Claro que um grande fardo foi retirado das costas de toda uma geração de mulheres, que já nasceram sem a necessidade inerente de pensar apenas com os neurônios dos homens que as cercam, mas ainda existem e cada dia surgem, questões a serem discutidas.
Neste blog tratamos do tema muitas e muitas vezes e a cada dia que passa percebo que não é suficiente. Porque as mulheres continuam querendo ser perfeitas, sob a ótica distorcida da sociedade que trocou o machismo retrógrado dos séculos passados, por um mais moderno e multifacetado, disfarçado de exigência do mercado.
Sim, porque em qualquer camada da sociedade, se uma mulher quiser realmente se igualar a um homem em questões profissionais e de direitos humanos, ela terá de provar que é muito melhor. Ser igual não basta. É pouco, ou quase nada.
Ela terá que provar que é capaz de ser uma profissional amplamente bem sucedida, uma dona de casa hábil e uma mãe exemplar. Em muitos casos, ela terá de aceitar ter dois empregos: um mal remunerado, que é o da profissão e um filantrópico, que é o de casa.
Caso não consiga, será criticada pela falta de cuidado com os filhos, pelo desleixo com a aparência, por dispensar pouca atenção ao marido, pela falta de concentração no trabalho. E você reconhece um tipo assim de longe: é aquela que anda esvoaçante, que esbarra em você no supermercado e não perde tempo pedindo desculpas. É aquela que alega que paga caro, justamente para que o filho seja educado pela escola. É aquela que precisa a todo tempo, ser lembrada de respirar de vez em quando.
Você também reconhece uma figura destas no metrô, dormindo em pé, apesar do barulho e do sacolejo. Que vive cheia de culpa pelo que não faz. Que muitas vezes se pega pensando: ‘quem foi que inventou esse raio de igualdade dos sexos?’.
Um novo ano irá começar e com ele, uma nova oportunidade de fazer diferente, de pensar e de agir diferente. De entender que perfeição é fazer o máximo que podemos com aquilo que temos, aceitando as limitações e sendo o que somos, da forma mais verdadeira possível.
Mulheres perfeitas absolutamente não existem aqui, então lutar para ser uma delas, sob qualquer aspecto é a maior das tolices que podemos cometer. Afinal, como diz a protagonista Joanna ao final do filme: “não se trata de perfeição. Perfeito, não funciona”.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Renovando os propósitos

Não sei você, mas tive a impressão de que acabei de tirar a guirlanda de natal da porta e já estou colocando de novo. Parece clichê, mas o tempo está voando mesmo, atropelando tudo o que vê pela frente e nos deixando com cara de paisagem, como se estivéssemos sempre saindo da cama, meio letárgicos.
Isso me faz pensar sobre como fazemos propósitos a cada final de ano e sobre como eles na maioria das vezes não se cumprem quando chega a próxima noite do peru recheado. Passou tão rápido que lá pelo terceiro ou quarto item da lista de “este ano eu prometo”, já estamos procurando a promoção das nozes para a ceia. Impressionante.
E nesta corrida desenfreada que se tornou a vida, acabamos esquecendo de olhar para dentro e para como estamos cuidando daquilo que deveria ser mais importante do que qualquer coisa. Vivemos o amor de qualquer jeito, deixamos a família de lado, depositamos nossa devoção em coisas efêmeras, invertemos as prioridades. Tudo em nome do tempo, que apesar de ser igual para todos, tem a sua quota de livre arbítrio: cada um usa como bem entende.
Mas esta oportunidade é sazonal e mais uma vez bate à porta: o natal anuncia que um novo ano vai chegar e teremos mais 365 dias para cumprir (ou não) as promessas daquela lista, que salvo raras exceções, devem ser as mesmas dos últimos 10 anos. E caso a sua lista já esteja amarelada, que tal fazer uma nova relação, como novos propósitos? Aí vão algumas dicas:
Fazer dieta: esta é básica. Quase todo mundo deve ter esse item na lista. Mas não corte apenas calorias, gorduras e doces. Corte o excesso de zelo, de compromissos, de arrogância, de hipocrisia, de contas para pagar. Monte um prato simples, com aquilo que é essencial para viver e livre-se do peso extra que você carrega, no corpo e na mente.
Fazer exercícios: na minha lista este item é o mais antigo. Vamos exercitar o corpo, a medicina diz que é bom para uma porção de coisas ligadas à saúde. E vamos exercitar a bondade, o desapego, a esperança, a fé e as atitudes concretas. Todos nós sabemos o que é correto, falta mesmo é um pouco de exercício, de movimento real em direção ao objetivo.
Trabalhar menos: se você adotou um estilo de vida que precisa de muito trabalho para ser sustentado, repense suas necessidades. O seu excesso de trabalho, se você é funcionário, gera mais divisas para alguém que talvez não precise tanto e tira você do lugar onde você mais deveria desejar estar, que é o lar. E se você é patrão, quem sabe seja a hora de começar a pensar em viver com menos, para viver melhor.
Fazer uma viagem: pense em quantos destinos maravilhosos você ainda não conhece e planeje concretamente ir para algum deles. Viaje literalmente com sua família e viaje também de forma abstrata, nos seus sonhos, nos seus planos, nas suas ideias. Viaje no seu futuro, nas coisas que espera, nas possibilidades que a vida oferece. Viaje sentada no tapete da sala, sozinha, ou com seus filhos e marido. Mantenha os pés no chão e a cabeça no alto!
Acho que estes quatro itens já ajudam a começar uma nova lista. E não importa se você tem dificuldade de cumprir propósitos, ou se já não acredita que quando o final do próximo ano chegar as coisas estarão de fato, diferentes. Porque, como me disse uma vez um psiquiatra que conheço, “a gente muda, quando a gente muda”.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Entre o amor e o corpo

Quando você deseja preparar um jantar especial ou aquele almoço familiar de domingo, vai ao açougue e pede mais ou menos assim: “vê dois quilos de filé, por favor”; ou então “um peito de frango sem osso, por gentileza”. E assim por diante, cada um com suas preferências. Mas você por acaso, algum dia, já imaginou chegar em uma loja e pedir assim, com esta facilidade, as partes do corpo que você gostaria de substituir?
Me vê 60 centímetros de cintura, por favor”; ou quem sabe “eu quero um nariz bem fininho, por gentileza”; ou ainda “embala pra mim duas pernas bem longas, mas tira a gordura antes de pesar hein!”. Parece loucura não é? Só que de certa forma, a metáfora é bem real em nossos dias.
Não estou me referindo a cirurgias plásticas. Nem à imensidão de novas tecnologias para corrigir os “defeitinhos” do corpo. Estou falando de como transformamos nosso corpo em bem de consumo e de como chegamos a tratá-lo como barganha de feira, como faziam os antigos mercenários.
A História nos mostra que a padronização da beleza não é recente, sempre existiu. Os modelos de referência é que foram mudando. Ser magra, inclusive, já foi sinônimo de ser doente ou incapaz para a maternidade. Bonitas mesmo eram as mulheres que tinham um corpo largo, apropriado para acomodar bem os bebês. Já hoje...
E por causa destas mudanças que não são bruscas, mas que sutilmente vão delineando uma nova sociedade, cada vez mais mercantilizada e voltada para o consumo, criou-se uma nova geração de mulheres, que supervaloriza o corpo em detrimento de quaisquer outros valores ou sentimentos. Isso não quer dizer que elas estejam mais saudáveis. Talvez uma boa parte sim, mas na grande maioria dos países, percebe-se um aumento desenfreado da obesidade – mostrando que a preocupação com o corpo permeia apenas o nível filosofal.
E já que estamos falando em peso, coloque na balança o tamanho da frustração que isso causa: a mídia grita cada dia mais alto que ser magra é ser bonita, é ser saudável, é ser aceita, é ser desejada, é deixar de ser solitária. E por outro lado a sociedade de consumo cria novas necessidades de cardápio mais rápido, mais prático, mais confortável e de calorias mais e mais vazias. Que disputa não?
No meio dessa guerra existem mulheres neuróticas, que lamentam o sobrepeso devorando uma caixa de bombons, ou que comemoram a perda de 300g indo ao fast-food mais próximo. E pior do que isso: que aprenderam e ensinam que o tamanho da felicidade é diretamente proporcional ao tamanho das medidas.
Para provar que meu raciocínio não é apenas uma crítica ao sistema, cito uma recente pesquisa do Max Planck Institute for Human Development na Alemanha, que mostrou dados deprimentes: as mulheres se dizem mais felizes estando magras do que num relacionamento.
O estudo monitorou 24 anos das vidas de mulheres alemãs (entre 1984 e 2008) e descobriu que mais mulheres estavam felizes por estarem no peso que julgavam adequado, do que por ter um relacionamento estável. Estar acima do peso, por outro lado, foi considerado mais deprimente e excludente do que ser solteira.
Nada de novo para nós, mulheres tupiniquins não é? Todo mundo sabe, mas quase ninguém fala, que as mulheres só acreditam em felicidade no amor quando estão dentro de uns jeans tamanho 38. A partir daí tudo se torna incerto e o chocolate se mostra o melhor parceiro possível.
Claro que a saúde física tem reflexos na vida emocional e vice-versa. Claro que estar magro é fisiologicamente melhor do estar acima do peso. Claro que esse é o ideal para se ter qualidade de vida e que isso influencia também na qualidade dos relacionamentos. Mas coisificar o corpo a ponto de que seu status quo seja mais importante do que a felicidade dos seus relacionamentos é um nível absurdo de alienação, que futuramente cobrará suas reservas numa sociedade cada vez mais individualista e solitária.
Se você acha que anda se enquadrando na pesquisa é hora de parar, repensar suas escolhas e rever seu conceito de felicidade. Porque este corpo que abriga você, mais cedo ou mais tarde vai te deixar na mão. Mas as pessoas que você amar e que te amarem durante a vida estarão lá e serão a única coisa que realmente importa.