quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Em construção

Todas as tragédias climáticas que atingiram o sudeste do Brasil e de forma mais traumática a região serrana do Rio de Janeiro me fizeram pensar. Pensar nas vítimas, nos que se foram, nos que perderam tudo, nos que perderam todos. Mas também naqueles que vão reconstruir. Naqueles que terão que começar do zero, que se obrigarão a ter forças para colocar tudo em pé outra vez.
Fico imaginando se vão querer colocar alicerces no mesmo lugar, se terão coragem de repetir o mesmo erro, não querendo julgar de quem é a culpa ou dividi-la em partes iguais entre governo e população. Apenas realmente fico conjeturando se vão querer as mesmas paredes, tudo exatamente igual ou se o que querem agora é transformar, esquecer e fazer tudo novo e diferente.
E então fico me questionando se é isso que fazemos diariamente. Nossa vida é toda planejada e vamos construindo paredes e escadas e varandas que muitas e muitas vezes se desfazem e viram poeira pelo ar. Construímos um quarto, pintamos, decoramos, penduramos retratos, enchemos vasos com lindas flores, mas de repente acontece alguma coisa inesperada e dolorosa e transforma nosso castelo em um amontoado de escombros.
É aí que acontece o dia seguinte. Muita lama, muita sujeira, muitos cacos para juntar, muitas feridas para curar. Mas ele está lá e temos que pensar em como colocar tudo no lugar e nos refazer, causando o menor dano possível. E é nesta hora que devemos planejar o que e como fazer novamente. Se vamos querer as mesmas cores, os mesmos móveis. Se vamos continuar pelo mesmo caminho que nos levou ao caos ou se é hora de mudar a planta e fazer um novo projeto.
Como mulheres temos ainda um “talento” especial de construir castelos nas nuvens, onde qualquer vento pode derrubar. Temos mais expectativas, esperamos mais dos outros, somos mais sensíveis às quedas. E ao mesmo tempo somos fortes o suficiente para carregar uma carga de tijolos e começar de novo. Talvez seja por isso que os homens tenham tanta dificuldade em nos entender. Eles apenas são ou não são fortes, ao passo que nós, respeitando-se as devidas exceções, somos frágeis como a pena e resilientes como o aço.
Em certo momento da vida percebemos então, que nossas escolhas já nos levam a paredes mais sólidas. Já conseguimos entender a dinâmica da construção da nossa existência e a decisão de que materiais usar se torna um pouco mais fácil. Aprendemos a selecionar os amigos, a cultivar a família, a admirar as pessoas certas, a administrar melhor as crises. E nem por isso, a construção estará terminada.
Nossa vida estará sempre em construção. Nunca chegará o momento da entrega das chaves. Sempre haverá o que resolver, sempre haverá um reparo, uma reforma e para muitos a reconstrução será constante. E isso não precisa ser ruim ou doloroso como é no caso de uma enchente. A construção diária de quem somos é um processo que embora não seja fácil, não precisa ser temido. O material de que somos feitos é bastante maleável e pode se moldar a novas situações, felizmente.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Mulheres Perfeitas

Não sei se você já teve a oportunidade de assistir ao filme “Mulheres Perfeitas”, que tem no elenco algumas figurinhas conhecidas de Hollywood como Nicole Kidman, Matthew Broderick, Glenn Close e Bette Midler. O filme não é novo, mas assisti há pouco e fiquei pensando sobre o enredo improvável, mas intrigante.
O fato é que um casal se muda para uma pequena cidade do interior e aos poucos vai percebendo que as mulheres de lá parecem ter saído recentemente da caixa: corpo perfeito, cabelo de dar inveja, casa impecável, culinária de revista e sorrisos inabaláveis. Sem TPM, sem lágrimas, sem reclamações.
E para resumir, o casal descobre que se tratava de um plano muito bem arquitetado, para transformar as mulheres em robôs que fizessem e agissem apenas de acordo com a vontade de seus maridos. O plano era levado a cabo através da implantação de um chip no cérebro destas esposas, responsável pela execução do software “mulheres perfeitas”.
Gostos à parte, já que o filme ficou meio indeciso entre a comédia e o suspense, pode servir para uma breve reflexão. Basta olharmos para a História, para perceber que mesmo sem chip, muitas gerações de mulheres nasceram programadas para executar apenas uma tarefa durante toda a vida: fazer a vontade dos homens fossem eles maridos, pais, irmãos ou em qualquer outro tipo de relação.
Quando a “farsa” foi descoberta e o “chip” foi retirado, a situação mudou, mas não necessariamente melhorou. Claro que um grande fardo foi retirado das costas de toda uma geração de mulheres, que já nasceram sem a necessidade inerente de pensar apenas com os neurônios dos homens que as cercam, mas ainda existem e cada dia surgem, questões a serem discutidas.
Neste blog tratamos do tema muitas e muitas vezes e a cada dia que passa percebo que não é suficiente. Porque as mulheres continuam querendo ser perfeitas, sob a ótica distorcida da sociedade que trocou o machismo retrógrado dos séculos passados, por um mais moderno e multifacetado, disfarçado de exigência do mercado.
Sim, porque em qualquer camada da sociedade, se uma mulher quiser realmente se igualar a um homem em questões profissionais e de direitos humanos, ela terá de provar que é muito melhor. Ser igual não basta. É pouco, ou quase nada.
Ela terá que provar que é capaz de ser uma profissional amplamente bem sucedida, uma dona de casa hábil e uma mãe exemplar. Em muitos casos, ela terá de aceitar ter dois empregos: um mal remunerado, que é o da profissão e um filantrópico, que é o de casa.
Caso não consiga, será criticada pela falta de cuidado com os filhos, pelo desleixo com a aparência, por dispensar pouca atenção ao marido, pela falta de concentração no trabalho. E você reconhece um tipo assim de longe: é aquela que anda esvoaçante, que esbarra em você no supermercado e não perde tempo pedindo desculpas. É aquela que alega que paga caro, justamente para que o filho seja educado pela escola. É aquela que precisa a todo tempo, ser lembrada de respirar de vez em quando.
Você também reconhece uma figura destas no metrô, dormindo em pé, apesar do barulho e do sacolejo. Que vive cheia de culpa pelo que não faz. Que muitas vezes se pega pensando: ‘quem foi que inventou esse raio de igualdade dos sexos?’.
Um novo ano irá começar e com ele, uma nova oportunidade de fazer diferente, de pensar e de agir diferente. De entender que perfeição é fazer o máximo que podemos com aquilo que temos, aceitando as limitações e sendo o que somos, da forma mais verdadeira possível.
Mulheres perfeitas absolutamente não existem aqui, então lutar para ser uma delas, sob qualquer aspecto é a maior das tolices que podemos cometer. Afinal, como diz a protagonista Joanna ao final do filme: “não se trata de perfeição. Perfeito, não funciona”.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Renovando os propósitos

Não sei você, mas tive a impressão de que acabei de tirar a guirlanda de natal da porta e já estou colocando de novo. Parece clichê, mas o tempo está voando mesmo, atropelando tudo o que vê pela frente e nos deixando com cara de paisagem, como se estivéssemos sempre saindo da cama, meio letárgicos.
Isso me faz pensar sobre como fazemos propósitos a cada final de ano e sobre como eles na maioria das vezes não se cumprem quando chega a próxima noite do peru recheado. Passou tão rápido que lá pelo terceiro ou quarto item da lista de “este ano eu prometo”, já estamos procurando a promoção das nozes para a ceia. Impressionante.
E nesta corrida desenfreada que se tornou a vida, acabamos esquecendo de olhar para dentro e para como estamos cuidando daquilo que deveria ser mais importante do que qualquer coisa. Vivemos o amor de qualquer jeito, deixamos a família de lado, depositamos nossa devoção em coisas efêmeras, invertemos as prioridades. Tudo em nome do tempo, que apesar de ser igual para todos, tem a sua quota de livre arbítrio: cada um usa como bem entende.
Mas esta oportunidade é sazonal e mais uma vez bate à porta: o natal anuncia que um novo ano vai chegar e teremos mais 365 dias para cumprir (ou não) as promessas daquela lista, que salvo raras exceções, devem ser as mesmas dos últimos 10 anos. E caso a sua lista já esteja amarelada, que tal fazer uma nova relação, como novos propósitos? Aí vão algumas dicas:
Fazer dieta: esta é básica. Quase todo mundo deve ter esse item na lista. Mas não corte apenas calorias, gorduras e doces. Corte o excesso de zelo, de compromissos, de arrogância, de hipocrisia, de contas para pagar. Monte um prato simples, com aquilo que é essencial para viver e livre-se do peso extra que você carrega, no corpo e na mente.
Fazer exercícios: na minha lista este item é o mais antigo. Vamos exercitar o corpo, a medicina diz que é bom para uma porção de coisas ligadas à saúde. E vamos exercitar a bondade, o desapego, a esperança, a fé e as atitudes concretas. Todos nós sabemos o que é correto, falta mesmo é um pouco de exercício, de movimento real em direção ao objetivo.
Trabalhar menos: se você adotou um estilo de vida que precisa de muito trabalho para ser sustentado, repense suas necessidades. O seu excesso de trabalho, se você é funcionário, gera mais divisas para alguém que talvez não precise tanto e tira você do lugar onde você mais deveria desejar estar, que é o lar. E se você é patrão, quem sabe seja a hora de começar a pensar em viver com menos, para viver melhor.
Fazer uma viagem: pense em quantos destinos maravilhosos você ainda não conhece e planeje concretamente ir para algum deles. Viaje literalmente com sua família e viaje também de forma abstrata, nos seus sonhos, nos seus planos, nas suas ideias. Viaje no seu futuro, nas coisas que espera, nas possibilidades que a vida oferece. Viaje sentada no tapete da sala, sozinha, ou com seus filhos e marido. Mantenha os pés no chão e a cabeça no alto!
Acho que estes quatro itens já ajudam a começar uma nova lista. E não importa se você tem dificuldade de cumprir propósitos, ou se já não acredita que quando o final do próximo ano chegar as coisas estarão de fato, diferentes. Porque, como me disse uma vez um psiquiatra que conheço, “a gente muda, quando a gente muda”.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Entre o amor e o corpo

Quando você deseja preparar um jantar especial ou aquele almoço familiar de domingo, vai ao açougue e pede mais ou menos assim: “vê dois quilos de filé, por favor”; ou então “um peito de frango sem osso, por gentileza”. E assim por diante, cada um com suas preferências. Mas você por acaso, algum dia, já imaginou chegar em uma loja e pedir assim, com esta facilidade, as partes do corpo que você gostaria de substituir?
Me vê 60 centímetros de cintura, por favor”; ou quem sabe “eu quero um nariz bem fininho, por gentileza”; ou ainda “embala pra mim duas pernas bem longas, mas tira a gordura antes de pesar hein!”. Parece loucura não é? Só que de certa forma, a metáfora é bem real em nossos dias.
Não estou me referindo a cirurgias plásticas. Nem à imensidão de novas tecnologias para corrigir os “defeitinhos” do corpo. Estou falando de como transformamos nosso corpo em bem de consumo e de como chegamos a tratá-lo como barganha de feira, como faziam os antigos mercenários.
A História nos mostra que a padronização da beleza não é recente, sempre existiu. Os modelos de referência é que foram mudando. Ser magra, inclusive, já foi sinônimo de ser doente ou incapaz para a maternidade. Bonitas mesmo eram as mulheres que tinham um corpo largo, apropriado para acomodar bem os bebês. Já hoje...
E por causa destas mudanças que não são bruscas, mas que sutilmente vão delineando uma nova sociedade, cada vez mais mercantilizada e voltada para o consumo, criou-se uma nova geração de mulheres, que supervaloriza o corpo em detrimento de quaisquer outros valores ou sentimentos. Isso não quer dizer que elas estejam mais saudáveis. Talvez uma boa parte sim, mas na grande maioria dos países, percebe-se um aumento desenfreado da obesidade – mostrando que a preocupação com o corpo permeia apenas o nível filosofal.
E já que estamos falando em peso, coloque na balança o tamanho da frustração que isso causa: a mídia grita cada dia mais alto que ser magra é ser bonita, é ser saudável, é ser aceita, é ser desejada, é deixar de ser solitária. E por outro lado a sociedade de consumo cria novas necessidades de cardápio mais rápido, mais prático, mais confortável e de calorias mais e mais vazias. Que disputa não?
No meio dessa guerra existem mulheres neuróticas, que lamentam o sobrepeso devorando uma caixa de bombons, ou que comemoram a perda de 300g indo ao fast-food mais próximo. E pior do que isso: que aprenderam e ensinam que o tamanho da felicidade é diretamente proporcional ao tamanho das medidas.
Para provar que meu raciocínio não é apenas uma crítica ao sistema, cito uma recente pesquisa do Max Planck Institute for Human Development na Alemanha, que mostrou dados deprimentes: as mulheres se dizem mais felizes estando magras do que num relacionamento.
O estudo monitorou 24 anos das vidas de mulheres alemãs (entre 1984 e 2008) e descobriu que mais mulheres estavam felizes por estarem no peso que julgavam adequado, do que por ter um relacionamento estável. Estar acima do peso, por outro lado, foi considerado mais deprimente e excludente do que ser solteira.
Nada de novo para nós, mulheres tupiniquins não é? Todo mundo sabe, mas quase ninguém fala, que as mulheres só acreditam em felicidade no amor quando estão dentro de uns jeans tamanho 38. A partir daí tudo se torna incerto e o chocolate se mostra o melhor parceiro possível.
Claro que a saúde física tem reflexos na vida emocional e vice-versa. Claro que estar magro é fisiologicamente melhor do estar acima do peso. Claro que esse é o ideal para se ter qualidade de vida e que isso influencia também na qualidade dos relacionamentos. Mas coisificar o corpo a ponto de que seu status quo seja mais importante do que a felicidade dos seus relacionamentos é um nível absurdo de alienação, que futuramente cobrará suas reservas numa sociedade cada vez mais individualista e solitária.
Se você acha que anda se enquadrando na pesquisa é hora de parar, repensar suas escolhas e rever seu conceito de felicidade. Porque este corpo que abriga você, mais cedo ou mais tarde vai te deixar na mão. Mas as pessoas que você amar e que te amarem durante a vida estarão lá e serão a única coisa que realmente importa.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O ter, o ser e a campainha do apartamento 1

Faz tempo que não tenho inspiração para escrever. Sim, eu espero a inspiração. Não tenho força criativa suficiente para jorrar palavras. Admiro quem tem, quase invejo. Mas eu preciso de situações e novas leituras. Ambas, bem casadas, me fazem escrever. Vamos a elas.
Moro em uma das maiores cidades do mundo, onde cada pessoa é sim, uma ilha. São Paulo é o lugar que conheço, embora conheça poucos mesmo, onde cada pessoa vive exclusivamente para si, no pior sentido que a frase possa ter.
Um bom exemplo disso é o casal que mora no apartamento 1, bem ao lado do meu. Se por alguma infelicidade você precisar tocar a campainha deles, esqueça. Eles não atendem. A recenseadora do IBGE tocou o interfone deles e nada. O entregador de água tocou o interfone, para afinal, entregar a água que eles pediram e nada. Eu já toquei a campainha, em caso de urgência e nada. Devem ser surdos – pensei - mas não são. Eles conversam entre si e embora o volume de voz indique surdez é apenas falta de noção mesmo.
Não bastasse isso, o homem toca saxofone (muito mal, diga-se de passagem) o dia inteiro. Não é hipérbole. É o dia inteiro mesmo. É um alívio quando o telefone deles toca, uma breve pausa. Quase me faz gostar de Kenny G, imagine só. E isso me faz pensar que eles vivem como se sozinhos fossem no prédio, na comunidade, na vida. Sequer chegam ao questionamento de que pode haver alguém incomodado. Para eles, “alguém”, simplesmente não existe. Triste não é?
Enfim, como eles há milhares espalhados pelo mundo. Talvez eu pudesse tentar ser mais branda e pensar que no meio de tantas possibilidades, eles são pessoas alternativas. Mas não são, infelizmente. Eles são surdos-mudos sociais, o que me faz sentir aquela sensação terrível de pena. Porque até os fisicamente surdos aprendem a “ouvir”. Mas os surdos sociais dificilmente atingirão essa compreensão.
E se analisarmos as mutações sociais ocorridas no mundo, suas revoluções, suas guerras, seus ajustes e as diferentes necessidades de cada época, percebemos que isso não é apenas reflexo do tempo em que vivemos. É assustador, mas é um novo modo de vida – que exclui e marginaliza tudo o que está fora de “mim”. Nunca os pronomes eu, meu e mim fizeram tanto sentido quanto neste século.
E aí me peguei tendo o seguinte pensamento: perdemos muito mais tempo preenchendo o ter do que o ser. E no ter definitivamente não há espaço para o outro. No ser sim, há um imenso campo de futebol para várias partidas simultâneas. Mas o ter é escuro e vazio.
A lógica do consumo cria uma necessidade absoluta em mim, de algo sem o qual consegui viver desde sempre, mas que já não posso mais. Então preciso trabalhar mais, produzir mais, me conectar mais, para estar mais perto do tão precioso objeto. Quando consigo comprá-lo, já está obsoleto e começa tudo outra vez.
Aí penso que o raciocínio pode ser muito simplista. Mas a Viviane Andrade Pereira, que escreveu o livro “Corpo ideal, peso normal – transformações na subjetividade feminina” concorda comigo. Já são duas pessoas, não deve ser tão simplista assim. Ela disse: “Consumir é uma atividade presente em todas as sociedades humanas. Atualmente consumimos para satisfazer as nossas necessidades básicas, mas também as necessidades de identificação, status, pertencimento e gratificação individual. O consumo aponta para uma reflexão acerca da sociedade em que vivemos e sobre quem somos”. Brilhante.
Então para resumir a questão, a problemática é essa: nos aproximamos virtualmente, pela globalização tecnológica e os processos que ela implica; geograficamente, por causa da explosão demográfica; e nos afastamos socialmente, porque estamos concentrados demais naquilo que precisamos ter, em detrimento do que precisamos ser. Existe solução pra isso? No campo teológico sim. Mas pra quem ignora essa esfera, só me resta recorrer à filosofia dos parachoques de caminhão: “depois, não diga que eu não avisei”.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Você realmente precisa disto?


Caminhando pelos corredores de um shopping center em uma grande cidade é possível entender o fenômeno do endividamento feminino. Motivo de piada, embaraços e até brigas, o estouro do cartão de crédito costuma ser rotina na vida das famílias de classe média para cima. As mulheres em especial são campeãs no quesito “Ih! Me perdi nas contas outras vez!”.
Andando pelo shopping, elas olham para os manequins com lindos vestidos, presos na parte de trás da cintura com alfinetes. Então, na verdade, não querem o vestido, querem aquela cintura. E nunca param de comprar, achando que em algum momento vão encontrar exatamente a fórmula que, sem esforço e sem sacrifício, as tornará lindas e desejáveis.
Claro que não é só isso. Mas em grande parte é sim: quando compramos compulsivamente, estamos tentando preencher um espaço que é relacional. Nada material poderá preencher. E enquanto cada uma de nós não descobrir isso de fato, as empresas de cartões de crédito, os bancos, as lojas, a publicidade e todo segmento envolvido na problemática continuará a lucrar na mesma proporção: compulsivamente.
No mês de agosto, a empresa especializada em pesquisas sobre mulheres, Sophia Mind constatou que 59% das mulheres brasileiras estão endividadas e que 21% delas não sabem como pagar a conta. A pesquisa também apontou que 81% das brasileiras compram a prazo e 11% delas, não controlam os gastos.
Esta pesquisa apenas oficializou aquilo que a gente já sabe. Ouvimos por aí toda hora, no salão de beleza, na fila do supermercado, na sala de espera do médico, esperando as crianças na escola. Todo mundo sabe que grande parte das mulheres tem dificuldade de resistir a um sapato, uma bolsa, uma joia, à coleção de roupas da nova estação. E quanto mais a dívida cresce, mais aumenta a angústia de não conseguir pagá-la e mais se pensa em comprar, tentando aplacar a ansiedade que esta situação causa. Como sair, então, deste círculo vicioso?
A minha solução pessoal é bem simples, mas funciona. Uma vez fui a uma loja com um grupo de colegas de trabalho e coloquei o olho em um sapato. O mundo parou, a fivela do sapato brilhou mais do que nunca e uma névoa tomou conta do lugar. Então um amigo me puxou da nuvem e perguntou, sem dó, nem piedade: “você realmente precisa deste sapato?”.
Como uma amazona distraída, caí sentada do alto do cavalo galopante da ilusão e respondi: “não, não mesmo”. A partir de então, a tarefa tem sido bem menos dolorosa para mim.
Obviamente que, como toda mulher que se preze, as cores e modelos de cada nova estação ainda enchem meus olhos como frutas maduras em um pomar perfumado. Mas identificando todos os sentimentos possíveis, percebi que o de deitar no travesseiro à noite sem dívidas, me deixa mais feliz do que aquele despertado pelo cheiro de um sapato novo dentro da caixa.
A pesquisa também mostrou que quase 70% das entrevistadas já usaram ou usam o cheque especial e 27% destas o fazem todos os meses. E muitas delas responsabilizaram os problemas de última hora como fator determinante para entrar no vermelho. Ou seja: a renda está tão comprometida com o pagamento de dívidas, que não existe espaço para imprevistos.
Cada mulher (e cada homem também) precisa encontrar um caminho que torne viável o contorno do endividamento e ainda assim, a satisfação das necessidades pessoais. Ter o controle da situação nas mãos é como poder comer uma trufa sem engordar, ou como se a louça de uma hora para outra, se tornasse autolimpante: tecnicamente impossível, mas, totalmente desejável.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Estranha evolução


Fico perplexa quando ouço por aí, nos meios acadêmicos, midiáticos e populares, que o homem está evoluindo. Não só pela falta de provas cabais, nem pela arrogância de algumas teorias sem fundamento, mas pelo simples fato de que é só olhar para o homem, para comprovar que na verdade, ele está involuindo.
Os anos passam, os séculos transcorrem e quanto mais a ciência se multiplica, mais miserável o homem se torna. Descobrem-se dezenas de curas e centenas de novas doenças. Criam-se avanços tecnológicos e utilizam-se muitos deles para fins inglórios. A maioria da população mundial trabalha para sustentar a minoria que desfruta. E o homem é capaz de matar por motivos cada vez mais torpes. Onde está a evolução disso tudo?
A expansão do conhecimento é inegável e também a superação tecnológica que a humanidade protagoniza diariamente. Só que isto não tem tornado o homem melhor, mais apto para o convívio, mais dado às relações e mais preocupado com as questões sociais. Pelo contrário: na mesma medida em que o mundo melhora tecnologicamente, o ser humano piora.
Sempre houve violência e discórdia. Isso não é novidade por aqui desde que o mundo é mundo. O que mudou é que a violência é cada dia mais gratuita e cruel e sua exposição é tão exagerada, que está deixando de nos sensibilizar. Nem os filmes mais elaborados, com detalhes minuciosos quanto aos enredos de violência e morte conseguem se equiparar ao que acontece aqui na vida real.
A barbárie dos últimos acontecimentos no Brasil nos deixa perplexos, mas precisa mesmo é nos deixar atentos. Homens que matam suas companheiras, amante que manda esquartejar a mãe de seu filho, pais que têm filhos com as próprias filhas, mulheres que abandonam filhos recém nascidos para morrer, adolescentes de famílias ricas que estupram meninas: tudo isso não deve gerar histeria coletiva, mas deve acender a lâmpada da nossa sentinela.
A sentinela é aquele aviso que deveríamos ter diante das situações adversas. Coisas como mude sua atitude, se afaste desta pessoa, adote outro comportamento, saia desta rota são mensagens que recebemos todos os dias. E com o tempo vamos deixando de ouvir. Vamos deixando de perceber. Vamos perdendo a capacidade de julgar se uma situação oferece risco ou não.
Se a sua sentinela não está funcionando como deveria, faça uma lista e cole na geladeira. Como vimos no caso recente do goleiro Bruno e sua amante Eliza, a polícia nem sempre vai proteger você. Então é você quem deve fazê-lo. Anexe à sua lista, pequenos lembretes do tipo: beber e dirigir causa mortes; sexo fora do contexto certo causa sofrimento; dizer sim a tudo que os filhos querem causa problemas futuros; andar armado é perigoso; sair com estranhos é fria; usar drogas mata; não fiscalizar o que os filhos fazem na internet é péssimo; não conhecer os amigos deles é um erro fatal; usar o corpo para obter vantagens financeiras é arriscado. E a lista segue.
Precisamos proteger as nossas famílias, fechar as portas para as situações de risco, abrir bem os olhos para ver o perigo que nos rodeia. Se o homem estivesse mesmo evoluindo, nada disso seria necessário.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Aconteceu de novo


Acompanhamos estarrecidos (pelo menos a maioria de nós) mais um caso com desfecho trágico para uma família brasileira. Mais uma jovem mulher assassinada, privada do seu direito de viver e conviver. Mais um período de luto para o Brasil. Mais um período de luto para a humanidade.
Mércia vivia um momento promissor na carreira e segundo familiares, um momento feliz na vida. Mas conforme quem a matou, ela não tinha esse direito. Ela não podia ser feliz, a menos que aceitasse viver sob a coação de quem deliberadamente escolheu outro tipo de vida para ela.
E mais uma vez acompanhamos entorpecidos a imprensa divulgar fotos e imagens do corpo encontrado na represa, como se lhes pertencesse. Aquele corpo pertence à família de Mércia, nem um tipo de mídia – da mais poderosa à mais simples – tem o direito de mostrar aquelas imagens.
Esta mulher morreu porque tinha consciência. Ter consciência hoje em dia pode ser muito perigoso. Outras tantas, milhares eu diria, não têm consciência de sua situação. Não sabem que são mulheres, que são belas, que são livres, que têm valor, que há um mundo de possibilidades. Vivem ali, amarradas, atreladas ao pé da cama. E no dia em que tiverem consciência disso, correrão risco de morte, como Mércia corria.
Ela provavelmente descobriu que era boa demais para aquele homem. E não me venham os ativistas de direitos humanos usar o absurdo, legal, mas imoral, de dizer que estamos julgando precipitadamente o ex-companheiro dela. As evidências gritam mais alto do que qualquer prova.
Ela um dia deve ter acordado e olhado no espelho, daquelas olhadas para dentro de si, e visto que merecia muito mais do que uma coleira que a permitisse apenas espiar pela janela. Viu que não servia para ela aquele tipo de vida, aquele tipo de caráter. E por ter bom senso, terminou aquele relacionamento.
Então, mulheres, prestem atenção a isso e não sejam vítimas de homens sem caráter como este que vitimou Mércia. Se forem ameaçadas, denunciem, registrem boletim de ocorrência, mas não dependam da polícia. Avisem a família, os amigos, se mudem e andem acompanhadas. Não fiquem caladas, achando que o homem está blefando. Se ele disser, como aquele homem disse para Mércia, que você irá se encontrar com Deus mais cedo, não duvide dele. Proteja-se, proteja seus filhos, fuja, faça o que for necessário.
Gostaria de dizer que acredito que este será o último caso deste tipo, mas não posso. Porque o que vemos por aí é que há um tipo de homem que não aceita receber não como resposta. É uma pequena parcela da população masculina que não aceita o fato de que as mulheres, tal qual eles, têm direito ao seu livre arbítrio.
Não deixem de ter consciência, de perceber sua importância no mundo, de se valorizar para priorizar as vontades perniciosas dos outros. Mas saiam destes relacionamentos antes que eles destruam sua vida, sua família, sua identidade.
A única maneira de preservar a memória de mais esta vítima deste tipo de violência inaceitável é não permitindo que aconteça com você.